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sábado, 12 de outubro de 2013

Célula clandestina em Cuba falava português


Um dos jovens revolucionários que aplaudiram a vitória de Fidel Castro, no final dos anos 1950, falava português e cresceu numa célula clandestina contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

Filho de um português que fugiu nos anos 1940 ao regime salazarista, Ismael Mendes Baulet desde cedo se viu envolvido em política, já que a sua casa foi transformada em local de resistência à ditadura.
O pai, Adelino Mendes, antigo piloto marítimo, juntou-se à resistência e o filho cresceu entre propaganda comunista e esconderijos, em fuga da polícia do regime.
Agora, Ismael Mendes Baulet junta nos seus 67 anos de vida uma carreira na defesa do regime castrista. Engenheiro de avião e técnico de motor e fuselagem das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, combateu na crise dos mísseis de 1962 e, ainda agora, não se arrepende do país que ajudou a construir.
"A minha infância foi a de um menino pobre, num bairro obreiro, brincando, indo à escola pública porque os meus pais sempre se preocuparam com a nossa educação”, recorda.
No tempo de Batista, “éramos meninos e sabíamos tudo o que estava acontecendo, porque na minha casa haviam reuniões, o meu tio era funcionário de propaganda e agitação do Movimento 26 de Julho (liderado por Fidel Castro) e o meu pai e a minha mãe pertenciam a uma cédula clandestina".
"Tive uma infância muito pobre, não tinha brinquedos, uma que outra vez o meu pai ‘apertou as calças’ e conseguiu-me um carrinho ou uma bota de futebol. Éramos modestos, agora há muita gente que só pensa no consumo", salienta Ismael Mendes Baulet.
Quando era jovem, o lusodescendente recebeu "instrução militar" e participou mesmo naquele que foi um dos momentos de maior tensão militar durante a Guerra Fria.
“Estava na bateria antiaérea na Crise de Outubro (nome dado pelos cubanos à Crise dos Mísseis de Cuba de 1962) e disparávamos aos aviões americanos, que passavam rasantes e tiravam fotografias".
Casado com uma engenheira eléctrica, Ismael Mendes Baulet tem dois filhos, licenciados em engenharia hidráulica e economia, mas a quem sempre transmitiu os valores que aprendeu com o pai e com os castristas: "lutar a favor da humanidade e contra o que prejudique a classe que nos deu vida, nos viu nascer e criou".
"Esses princípios são os que o meu pai tinha e eu nunca o trairei", assegura o revolucionário, que se mostra crítico da posição dos Estados Unidos.
A América promove uma “política de rumores contra Cuba”, porque “não lhes convém que se divulgue a verdade do que acontece aqui", acusa.
Apesar disso, Ismael Mendes Baulet diz gostar muito de filmes americanos, principalmente ‘westerns’, e agradece à vizinha Venezuela "pelo cabo" que permite à população cubana o acesso à Internet.
Em Portugal, já esteve por duas ocasiões e já obteve a cidadania nacional, mas quanto ao futuro, esse é em Cuba.
O pai, nascido na Lousã, foi condecorado a título póstumo, em 1979, pela sua participação na Revolução cubana.
Mas foi em Portugal que os pais se conheceram. A sua mãe, uma cubana de origem francesa, era também militante do Partido Comunista Português. Os dois fugiram de Portugal nos anos 1940, depois de o pai ter participado numa insurreição a 08 de Setembro de 1936, promovida pela Organização Revolucionária da Armada, também conhecida como a “Revolta dos Marinheiros”.
O destino foi Cuba, devido às raízes da progenitora. Mas, à chegada, confrontaram-se com um regime ainda mais violento que o salazarismo, pelo que a opção pela resistência foi “natural”, explica Ismael Mendes Baulet.
"Os nossos pais inculcaram-nos muito o amor a Portugal e a Cuba, nunca puseram de lado nem a parte cubana nem a portuguesa e obrigavam-nos a falar em português" em casa, diz Ismael.
Agora, com a passagem dos anos, Ismael Mendes Baulet já "fala pouco mas entende muito bem" o português.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O DNA socialista e revolucionário do 8 de março

O DNA socialista e revolucionário do 8 de março

Vanessa Gil*

Com a proximidade do Dia internacional da Mulher somos bombardeadas (os) com imagens de mulheres reproduzindo os papéis que lhes foram impostos nos espaços privados: mãe, esposa e filha. Na mídia, as propagandas e anúncios dão a impressão de que quase todos poderiam ser reaproveitados para as comemorações do Dia das Mães. No espaço público é valorizada pelas qualidades que adquiriu nos cuidados com a família: a trabalhadora é sensível como as mães, organizada como as donas de casa e assim por diante. Mas esse ideal da mulher cuidadora em nada reflete os reais fatos que levaram ao oitavo dia de março ser dedicado às mulheres. A data foi escolhida por ter sido nela em que as mulheres russas iniciaram aquela que seria, com seus equívocos e acertos, a maior revolução do século 20.

O papel das mulheres na Revolução 1917 foi apagado da história. Durante quase um século tivemos como referência, para o inicio das comemorações do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulheres, o incêndio ocorrido nos Estados Unidos onde trabalhadoras de uma indústria têxtil morreram queimadas. Tal fato realmente ocorreu, mas nada há de ligação entre esse triste dia e o início das comemorações.

A partir de novas pesquisas, sabemos que unificar as comemorações do Dia Internacional da Mulher em 8 de março foi proposto na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, em Copenhague, em 1910. Anteriormente, sem dia definido, acontecia em diferentes datas ao redor do mundo. Foram as mulheres russas que fizeram do oito de março um dia tão marcante, conforme conta Trotsky:

“O dia 23 de fevereiro (8 de março no calendário russo, orientado pelo calendário juliano) era o Dia Internacional da Mulher. Os círculos da social-democracia tencionavam festejá-lo segundo as normas tradicionais: reuniões, discursos, manifestos. Na véspera, ainda ninguém poderia supor que o Dia da Mulher pudesse inaugurar a Revolução. Nenhuma organização preconizara greves para aquele dia, tal foi a linha preconizada pelo Comitê na véspera do dia 23, e parecia ter sido aceita por todos. No dia seguinte, pela manhã apesar de todas as determinações, as operárias têxteis de diversas fábricas abandonaram o trabalho e enviaram delegadas aos metalúrgicos, solicitando-lhes que apoiassem a greve. Foi contra a vontade, escreve Kayurov, que os bolcheviques entraram na greve, secundados pelos operários mencheviques e socialistas-revolucionários. Visto tratar-se de uma greve de massas, não havia outro remédio senão fazer com que todos descessem rua e tomar a frente do movimento. Ninguém, absolutamente ninguém, supunha que o dia 23 de fevereiro marcaria o início de uma assalto decisivo contra o absolutismo.” (Gonzalez, 2010, p.55)

Ou seja, foi o protesto e a organização das mulheres contra a guerra que tirava a vida de seus filhos e maridos, aumentava a escassez de alimentos, a fome e o descaso do governo czarista, que levou em dois dias mais de 190 mil mulheres às ruas em Petrogrado. A partir das suas reivindicações, da força de seu protesto, surgiu vitoriosa a Revolução Russa. E como afirma a pesquisadora Ana Isabel Álvarez Gonzalez:

“Foi para relembrar a ação das mulheres na história da Revolução Russa que o Dia Internacional das Mulheres passou a ser comemorado de forma unificada no dia 8 de março. A decisão de unificação da data foi tomada na Conferência de Mulheres Comunistas, coincidindo com o congresso da Terceira Internacional, realizado em Moscou em 1921...” (2010, p. 15)

Sendo a história escrita até hoje pelas mãos dos vencedores, a luta das mulheres nas trincheiras desapareceu. Pouco se fala sobre seu papel na Comuna de Paris, poucos sabem das Marianas, nome dado ao pelotão de mulheres que venceu ao lado de Che Guevara e Fidel Castro, em Cuba. A história apagou a luta feminina do cenário oficial. Mas ela existiu, existe e sempre existirá, uma vez que é improvável que, sendo metade da população mundial, não exista em parte alguma vozes e consciências femininas a reivindicar o reconhecimento de seu protagonismo, sua autonomia, sua liberdade, sua história.

Inventar novas versões para a fatos históricos é, desde muito, umas das principais formas para perpetuar a dominação. Desvendá-los é a melhor forma de rompê-la. Por isso devemos sempre voltar a falar das origens do oito de março.


Vanessa Gil é socióloga, pós-graduada em Pensamento Marxista.

Referência: As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres. Ana Isabel Álvarez González. São Paulo: Expressão Popular ‐ SOF ‐ Sempreviva Organização Feminista, 2010.


sábado, 30 de julho de 2011

Cinzas do pastor americano que desafiou embargo dos EUA vão repousar em Cuba





As cinzas do pastor americano Lucius Walker, organizador de uma inúmeros comboios de ajuda a Cuba e que desafiou o embargo de Washington, repousam este sábado no centro cubano evangélico Memorial Martin Luther King (CMMLK), informou a imprensa local.


Seguidores Walker entregaram a urna aos evangélicos cubanos em uma cerimônia no Memorial José Martí, na Praça da Revolução, na presença do vice-presidente Esteban Lazo e do presidente do Parlamento, Ricardo Alarcon.

Walker, líder das caravanas "Pastores pela Paz", que buscavam romper o embargo que Washington mantém contra Cuba há meio século, morreu em setembro, em Nova York, aos 80 anos, de um ataque cardíaco.

O pastor, amigo do ex-presidente cubano Fidel Castro, a quem conheceu em julho passado, em sua última viagem à ilha, tinha expressado seu desejo de que suas cinzas repousassem em Cuba, de acordo com seus parentes.

O reverendo Raul Suarez, diretor do CMMLK, disse ao receber a urna que "a obra de Lucius Walker tem muito significado como testemunho da fé cristã comprometida com a paz, justiça e solidariedade".




A entrega das cinzas foi realizada no âmbito da vigésima caravana de solidariedade, que chegou à ilha há uma semana com 100 toneladas de ajuda humanitária, liderada pela filha do líder religioso, Gail Walker.

Fonte: AFP

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Inferno em festa: Morre terrorista anticubano Orlando Bosch

Aos 84 anos, morreu o terrorista cubano Orlando Bosch Ávila, conhecido por ser um dos homens que, ao lado de Posada Carriles, dedicou a vida a tentar derrubar o governo de Fidel Castro.

Pediatra, Bosch apoiou inicialmente Fidel Castro na Revolução Cubana em 1959. No ano seguinte, porém, deixou o país por criticar as nacionalizações feitas pelo novo governo, alegando que ali estava sendo implantado um regime comunista. 
Leia mais em Opera Mundi

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ajuda humanitária na Líbia? Só para os bandos aliados dos EUA



Leia este artigo publicado em Carta Maior

Líbia: uma guerra com nome e sobrenome

Um médico que cura só os amigos e não os inimigos é um participante na guerra ou um cúmplice. Uma organização que protege os civis só de um lado e não os do outro não é humanitária, mas sim beligerante. De modo que não há nada de histórico na Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU. Histórica teria sido uma resolução para proteger os civis em todas as guerras, incluindo uma zona de exclusão aérea sobre Gaza, Bahrein, Paquistão e Afeganistão. O que está ocorrendo agora na Líbia é uma intervenção na qual se apoia uma parte contra a outra. Isso tem um só nome: guerra. 

O artigo é de Johan Galtung(*)

Fiquei profundamente impressionado quando era um menino de 11 anos ao ver que meu pai, que era medida, operava dia e noite para salvar as vidas de soldados alemães que tinham ocupado meu país, a Noruega. Eles tinham ficado gravemente feridos por um torpedo que alcançou seu navio quando tentavam desembarcar. Meu pai dizia que o dever supremo de um médico é o de salvar vidas, sem fazer distinção alguma.

Um médico que cura só os amigos e não os inimigos é um participante na guerra ou um cúmplice. Uma organização que protege os civis só de um lado e não os do outro não é humanitária, mas sim beligerante. De modo que não há nada de histórico na Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU. Histórica teria sido uma resolução para proteger os civis em todas as guerras, incluindo uma zona de exclusão aérea sobre Gaza, Bahrein, Paquistão e Afeganistão. Mas no mesmo no dia em que se aprovou a resolução 1973, em 17 de março de 2011, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi tema de manchetes de primeira página ao matar civis no Afeganistão, o que, pelo visto, é uma rotina diária.

O que está ocorrendo agora na Líbia é uma intervenção na qual se apoia uma parte contra a outra. Isso tem um só nome: guerra.

É verdade, o presidente Barack Obama é mais multilateral que George W. Bush. Mas o problema não é quanto são os que decidem, mas sim o que decidem. Também é verdade que a resolução do Conselho de Segurança excluiu a previsão feita por Fidel Castro em 21 de fevereiro de que a OTAN iria ocupar a Líbia.

A maioria e a não aplicação do veto foram claras. Mas o trio anglo-estadunidense-francês representa menos de 500 milhões de pessoas, enquanto que os cinco países que se abstiveram – Brasil, Rússia, China, Índia e Alemanha – constituem quase a metade da humanidade.

Quem ganhar o apoio dos países islâmicos dirigirá o mundo e a OTAN agora está em guerra com quatro deles. O fato de os Estados Unidos colocarem-se em um segundo plano é facilmente explicável. O país está na bancarrota e quer compartilhar os custos econômicos, militares e, sobretudo, políticos. Há objeções no Congresso estadunidense sobre o tema e alguns temem que possa se converter em um atoleiro pior que o do Afeganistão.

Certamente, ninguém deveria ficar simplesmente olhando um regime reprimir seu próprio povo, como fez Kadafi. Todo outro tipo de medida deveria ter sido usada, incluindo a derrubada de aviões por meio de mísseis transportados por navios de guerra. Mas como alguém disse ironicamente na Rádio Nacional Pública dos Estados Unidos “presidente Obama lançou mais mísseis de cruzeiro que todos os outros ganhadores do Prêmio Nobel da Paz juntos” e esses projéteis atingiram todo tipo de alvos existentes, quer estivessem voando, circulando em veículos terrestres ou caminhando.

Um precedente é a ação da OTAN contra a Sérvia, na qual foram usados “todos os meios necessários”, mas sem um mandato do Conselho de Segurança da ONU. Como na Líbia, na Sérvia e no Kosovo o Ocidente fez sua propaganda habitual. O inimigo é reduzido a uma pessoa a odiar, ou seja, a receita usada por Orwell em seu livro “1984”. Milosevic, Hussein, Osama bin Laden e agora Kadafi. Esse trabalho preparatório foi feito também contra Fidel Castro e Hugo Chávez, até agora sem ações posteriores. É um paradoxo que o Ocidente, que produziu a ideia de um contrato social que o povo pode reconsiderar – Rousseau contra Hobbes – concentre-se tanto em uma só pessoa e tão pouco no povo.

Mas as metas na Sérvia eram claras: bombardear as empresas estatais, não as privatizadas, abrir caminho às corporações transnacionais para o controle dos recursos naturais, conseguir instalar essa enorme base militar chamada Camp Bondsteel e apoiar um chamado exército de libertação (UCK) que ostentava antecedentes recorde em matéria horrores. As armas usadas contra a Sérvia incluíram bombas de fragmentação e urânio empobrecido, que é radioativo e causa câncer nesta e nas futuras gerações.

Não sabemos se isso se aplica na guerra contra a Líbia. Não está claro quem são os rebeldes, ainda que não haja dúvida de que se opõem, com razão, fortemente à ditadura de Kadafi. Mas o que é que eles querem mesmo? Supostamente permitirão os investimentos estrangeiros diretos no petróleo e a instalação de uma ou duas bases militares, tanto por gratidão quanto para solidificar a vitória. E os Estados Unidos teriam então, finalmente, o que têm buscado há longo tempo: uma base da OTAN na África.

Na Líbia, talvez haja milhões de pessoas que não gostam de Kadafi, mas há também aqueles que, em troca, gostam muito de algumas de suas realizações. O Ocidente corre o risco de se converter em vítima de sua própria doutrina de “um país, uma pessoa” e cometer mais um duradouro e trágico crime contra a humanidade.

(*) Johan Galtung é professor de Estudos sobre a Paz, e reitor de Transcend, uma organização que promove a paz, o desenvolvimento e o meio ambiente.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Posada Carriles via atentados como atos 'heroicos'

Oficial de Inteligência da Brigada Invasora na Baía dos Porcos


Uma jornalista que entrevistou o ex-agente da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) Luis Posada Carriles sobre os atentados orquestrados por ele em Cuba em 1997 afirmou hoje, durante o julgamento do cubano anticastrista por um tribunal federal norte-americano, que ele via seus atos como "heroicos".

A repórter Ann Louise Bardach, do jornal norte-americano The New York Times, foi intimada a depor hoje, depois de ter passado anos combatendo sua possível participação por considerar que o depoimento prejudicaria o relacionamento entre os jornalistas e suas fontes de informação. A entrevista foi feita em Aruba, em 1998.

Atuando pela CIA nos anos 70

Posada Carriles, de 83 anos, é um ex-agente da CIA e ativista anticomunista que foi levado a julgamento nos EUA por perjúrio, obstrução de justiça e fraude imigratória, entre outras acusações.

Nascido em Cuba e naturalizado venezuelano, Posada Carriles atuou como agente da CIA entre 1960 e 1976, segundo documentos da própria agência norte-americana divulgados nos últimos anos. Ele foi condenado à revelia pelo atentado que, em 1976, derrubou uma aeronave comercial da companhia Cubana de Aviación, no qual 73 pessoas morreram, e como mentor de uma série de explosões contra hotéis em Cuba na década de 1990, nas quais um turista italiano morreu.


Acolhido pelos mafiosos cubanos de Miami

O anticastrista também foi preso no Panamá no ano 2000 por envolvimento em um complô para assassinar Fidel Castro durante uma conferência internacional no país centro-americano, mas foi perdoado em 2004 pela presidente panamenha, então em fim de mandato, Mireya Moscoso. Entre outros episódios, Posada Carriles esteve envolvido na fracassada invasão da Baía dos Porcos e no escândalo Irã-Contras.

Posada Carriles entrou nos Estados Unidos em 2005 e, segundo a promotoria, mentiu sob juramento às autoridades imigratórios norte-americanas em diversas ocasiões.

Cuba o espera, para julgá-lo e puní-lo


 Com informações de Paraná Online

quarta-feira, 9 de março de 2011

Escola que homenageou Cuba é campeã do Carnaval em Florianópolis


A escola da comunidade da Lagoa da Conceição, União da Ilha da Magia, de Florianópolis (SC), trouxe para avenida um tema recheado de polêmica. O enredo "Cuba sim. Em nome da verdade", ousou retratar os EUA como "monstros" e os guerrilheiros de Che e Fidel como ícones da liberdade.

Política à parte, o desfile encantou os jurados e trouxe o primeiro título para a agremiação em apenas três anos de história. A União deixou para trás escolas tradicionais da cidade, como a Copa Lord, atual campeã, e a Protegidos da Princesa, fundada em 1948 e detentora de 24 campeonatos. Unidos da Coloninha e Consulado do Samba ficaram na quarta e quinta posição, respectivamente.

As três primeiras colocadas voltarão à passarela nesta terça-feira (8) para o desfile das campeãs. A filha de Che, Aleida Guevara, permanece em Florianópolis para uma série de palestras na quarta e quinta-feira, mas ainda não confirmou presença no novo desfile.

Em uma proposta ousada, causando grande expectativa na sociedade, a escola conseguiu fazer um desfile impecável e conquistar boas notas em quase todos os quesitos. A escola ganhou com 264,8 pontos. Em segundo lugar ficou a Embaixada Copa Lord, com 261,5 pontos, e, em terceiro a Protegidos da Princesa com 261,3 pontos.

A médica e revolucionária cubana Aleida Guevara foi destaque na passarela e participou da apuração na arquibancada ao lado da comunidade da Lagoa da Conceição. A cada nota dez recebida a comunidade se levantava e comemorava a aproximação do título.

Aleida também comemorou a vitória e saudou a coragem da escola e a homenagem feita a seu povo e sua revolução. O enredo da União da Ilha da Magia (UIM) foi cantado por todos, e palavras de ordem como "Cuba sim, yankees não. Viva Fidel e a revolução" também foram ecoadas.

O destaque na pontuação foi também para a Comissão de Frente, que na Passarela Nego Quirido montou um mosaico com o rosto de Che Guevara, e para a bateria UIM, com todos os seus integrantes vestidos de guerrilheiros revolucionários.


Fonte: Vermelho

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dança macabra de cinismo - Artigo de Fidel Castro



A política de saqueio imposta pelos EUA e seus aliados da OTAN no Oriente Médio entrou em crise. Desencadeou-se inevitavelmente com o alto custo dos cereais, cujos efeitos se fazem sentir com mais força nos países árabes, onde apesar de seus enormes recursos petroleiros, a escassez de água, as áreas deserticas e a pobreza generalizada do povo contrastam com os enormes recursos derivados do petréleo que possuem os setores privilegiados.
Enquanto os preços dos alimentos triplicam-se, as fortunas imobiliárias e os tesouros da minoria aristocrática aumentam a trilhões de dólares.
O mundo arábico, de cultura e crença muçulmana, tem sido humilhado adicionalmente pela imposição a sangue e fogo dum Estado que não foi capaz de cumprir as obrigações elementares que lhe deram origem, a partir da ordem colonial existente até finais da Segunda Guerra Mundial, em virtude da qual as potências vitoriosas criaram a ONU e impuseram o comércio e a economia mundiais.
Graças a traição de Mubarak em Camp David o Estado árabe palestino não tem podido existir, apesar dos acordos da ONU de novembro de 1947, e Israel virou forte potência nuclear aliada aos EUA e à OTAN.
O complexo militar industrial dos EUA forneceu dezenas de milhares de milhões de dólares cada ano a Israel e aos próprios estados árabes dominados e humilhados por este.
O gênio saiu da garrafa e a OTAN não sabe como controlá-lo. Vão tentar tirar o maior proveito dos lamentáveis acontecimentos da Líbia. Ninguém seria capaz de saber neste momento o que ali está acontecendo. Todas as cifras e versões, até as mais inacreditáveis, têm sido divulgadas pelo império através dos meios de comunicação, semeando o caos e a desinformação.
É evidente que na Líbia se leva a cabo uma guerra civil. Por que e como se desencadeou a mesma? Quem vão pagar as consequências? A agência Reuters, fazendo-se eco do critério dum conhecido banco do Japão, o Nomura, expressou que o preço do petróleo poderia superar qualquer limite:
"’Se Líbia e Argélia suspendem a produção de petróleo, os preços poderiam superar os US$220 o barril e a capacidade ociosa da OPEP seria reduzida a 2,1 milhões de barris por dia, similar aos níveis atingidos durante a guerra do Golfo, e quando os valores atingiram os US$147 o barril em 2008’, afirmou o banco em uma nota".
Quem poderiam pagar hoje esse preço? Quais seriam as consequências em meio a uma crise alimentar?
Os líderes principais da OTAN estão exaltados. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, informou a ANSA, "… admitiu num discurso no Kuwait que os países ocidentais erraram em apoiarem governos não-democráticos no mundo árabe". Deve ser congratulado pela sua franqueza.
Seu colega francês Nicolás Sarkozy declarou: "A prolongada repressão brutal e sangrenta da população civil líbia é repugnante".
O chanceler italiano Franco Frattini declarou "‘acreditável’ a cifra de mil mortos no Trípoli […] ‘a cifra trágica será um banho de sangue’".
Hillary Clinton declarou: "… o ‘banho de sangue’ é ‘completamente inaceitável e ‘tem que parar’…".
Ban Ki-moon expressou: "‘É absolutamente inaceitável o uso da violência que há no país’".
"… ‘o Conselho de Segurança atuará conforme ao que decida a comunidade internacional’".
"‘Estamos considerando várias opções’".
O que Ban Ki-moon espera realmente é que Obama diga a última palavra.
O presidente dos Estados Unidos falou na tarde desta quarta-feira e expressou que a secretária de Estado sairia para a Europa a fim de concordar com seus aliados da OTAN as medidas a tomar. Em seu rosto se percebia a oportunidade de lidar com o senador da extrema-direita republicana John McCain; o senador pró-israelense de Connecticut, Joseph Lieberman e os líderes do Tea Party, para garantir sua candidatura pelo partido democrata.
A mídia do império preparou o terreno para atuar. Não seria estranho a intervenção militar na Líbia, com o qual, também, garantiria a Europa os quase dois milhões de barris diários de petróleo leve, se antes não acontecem sucessos que ponham fim à chefia ou à vida de Gaddafi.
De qualquer forma, o papel de Obama é bastante complicado. Qual será a reação do mundo árabe e muçulmano se o sangue nesse país se derramar em abundância com essa aventura? Será que uma intervenção da OTAN na Líbia vai deter a onda revolucionária desatada no Egito?
No Iraque se derramou o sangue inocente de mais de um milhão de cidadãos árabes, quando o país foi invadido com falsos pretextos. Missão cumprida! —proclamou George W. Bush.
Ninguém no mundo estará jamais de acordo com a morte de civis indefensos na Líbia ou em qualquer outra parte. E me pergunto: Por acaso os Estados Unidos e a OTAN aplicarão esse princípio aos civis indefensos que os aviões sem piloto ianques e os soldados dessa organização matam todos os dias no Afeganistão e no Paquistão?
É uma dança macabra de cinismo.

Fidel Castro Ruz
23 de fevereiro de 2011
19h42

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fidel alerta que EUA ordenarão a invasão da Líbia pela Otan

O líder cubano Fidel Castro advertiu nesta terça-feira que os Estados Unidos não hesitarão em ordenar que a Otan invada a Líbia para controlar o petróleo e colocou em dúvida a veracidade das informações que descrevem uma sangrenta repressão ordenada pelo governo de Muamar Kadhafi.
"Para mim é claramente evidente que o governo dos Estados Unidos não se preocupa em absoluto com a paz na Líbia, e não vacilará em dar à Otan a ordem de invadir este rico país, talvez em questão de horas ou em alguns dias", escreveu o líder cubano em mais um artigo de opinião.
Fidel diz ainda que é preciso esperar para saber "o quanto há de verdade ou mentira" nas informações sobre os acontecimentos na Líbia, onde, segundo as ONGs, entre 200 e 400 pessoas teriam morrido nos últimos dias nas repressão do regime Kadhafi.
"Pode-se estar ou não de acordo com Gaddafi (Kadhafi). O mundo foi invadido por todo tipo de notícias, empregando especialmente meios de informação em massa. Mas é preciso esperar o tempo necessário para conhecer com rigor quanto há de verdade ou mentira, ou uma mistura de fatos de todos os tipos que, em meio ao caos, são produzidos na Líbia".
Fidel classificou ainda de "mentira com pérfidas intenções" a versão que circulou sobre uma possível fuga de Kadhafi para a Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, mantém relações com a Líbia.

Retirado de France Presse

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pombo: um guerrilheiro revolucionário que lutou com Che na Bolívia


Harry Villegas Tamayo conheceu Che aos 16 anos, na Sierra Maestra, em 1957. Com o triunfo da revolução cubana, em 1959, tornou-se um dos guarda-costas mais constantes do comandante. Em 1963, quando Che convocou ex-combatentes para uma guerrilha na Argentina, Villegas se ofereceu, mas foi recusado - por ser negro, sua presença levantaria suspeitas na Argentina.

Em 1965, quando estava no Congo Belga (ex-Zaire e, depois de 1997, República Democrática do Congo), Che pediu a Fidel que mandasse Villegas ao continente africano. Nessa época Che escolheu para ele o codinome Pombo. Depois de sete meses, os cubanos se retiraram sem conseguir massificar o movimento guerrilheiro. Che (agora sob o codinome Tatu) foi à Tanzânia e Pombo o acompanhou a Praga, antes de voltarem a Cuba. No dia 4 de novembro de 1966, Che chegou à Bolívia, na região de Ñancahuazú. Pombo tinha chegado antes, tendo passado pelo Brasil para entrar no país, com o intuito de levantar as características do local. Onze meses depois, no dia 8 de outubro, Che caiu prisioneiro do Exército boliviano, com a ajuda dos Estados Unidos. Foi assassinado no dia seguinte.



Pombo e mais cinco guerrilheiros (Ñato, Inti, Dario, Urbano e Benigno) conseguiram fugir e, durante seis meses - menos Ñato, que morreu no meio do caminho - percorrem mais de 600 quilômetros clandestinamente até cruzar a fronteira com o Chile. Desses sobreviventes, além de Pombo, outros dois combatentes ainda estão vivos: Urbano, que mora em Havana, e Benigno, que está em Paris, desde 1995. Dario morreu em 1968, mesmo ano em que Inti foi assassinado, numa tentativa de reorganizar a guerrilha na Bolívia.

A partir de 1976, Pombo ainda esteve à frente das tropas cubanas enviadas a Angola para lutar ao lado do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), contra a Unita e a FNLA, sustentadas pelo regime de apartheid da África do Sul, e pelos Estados Unidos, respectivamente.

Pombo hoje é general de Brigada das Forças Armadas Revolucionárias, vice-presidente da Associação de Combatentes da Revolução Cubana, membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano, deputado na Assembléia Nacional e um dos raros condecorados com a honra de "Herói da República de Cuba".



Aos 65 anos, Pombo é o único guerrilheiro vivo que lutou com Che Guevara nas montanhas da Sierra Maestra, no Congo e na Bolívia. Foram dez anos de convivência com o comandante, até a sua morte, em 1967.

Na semana passada, ele esteve no Brasil para participar da conferência internacional "Pensamento e Movimentos Sociais na América Latina e Caribe: Imperialismo e Resistências", promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e pela Via Campesina. Não foi a primeira vez que ele pisou em solo brasileiro. Em 1966, quando a guerrilha de Che se instalou na Bolívia, Pombo passou por São Paulo e por Campo Grande (MS) como estratégia para sua entrada no país vizinho sem chamar atenção.

Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, Pombo explica que o desfecho trágico da guerrilha na Bolívia, quando Che foi assassinado, teve origem na "traição" do Partido Comunista Boliviano e na decisão de Che de não abandonar uma coluna de guerrilheiros que havia se perdido do seu grupo. Ao comentar a situação da América Latina, Pombo diz que a Venezuela é a esperança do povo do continente e do Terceiro Mundo.

De onde vem o codinome Pombo? Sabe-se que, no Congo, Che usou números na língua local para renomear os guerrilheiros. Em Swahili - uma das línguas mais faladas na África - , Che passou a se chamar Tatu (que significa três), José Maria Tamayo tornou-se Mbili (dois) e Victor Dreke, Moja (um).

Harry Villegas Tamayo "Pombo" - Eu não estava entre os primeiros que foram para o Congo, e que receberam codinomes de números. Eu estava no Exército Ocidental quando o presidente Fidel Castro me disse que Che havia mandado me chamar na África. Só que, com o aumento do número de guerrilheiros, era complicado continuar dando nomes referentes a números porque ficavam muitos compridos. Che decidiu, então, procurar nomes em um dicionário. Escolheu para mim o nome Pombo Poljo, que significa néctar verde. Da mesma forma, escolheu Tumaini Tuma para nomear Carlos Coelho.

Antes do Congo, o senhor havia se oferecido para ir junto com um grupo de guerrilheiros à Argentina, mas Che não quis. Como foi a sua reação?

Pombo - No momento da saída do grupo, eu não entendi. Só depois percebi que, por ser negro, seria muito difícil me camuflar entre os argentinos. Então Che disse que eu não iria enquanto a guerrilha não adquirisse uma determinada força e até que ele próprio também já tivesse ido. Hermes Peña e Alberto Castellano foram se juntar a Jorge Massetti (jornalista argentino que entrevistou Che e Fidel, em 1958, na Sierra Maestra, e comandou a primeira guerrilha guevarista na Argentina, em 1963).

Como foi o seu primeiro contato com Che?

Pombo - Era 1957, eu tinha 16 anos e já participava de uma célula no meu povoado, ao pé da Sierra Maestra. Pichávamos paredes com propaganda do Movimento Revolucionário 26 de Julho, fazíamos ações contra as redes de eletricidade e a todo instante íamos presos. Como estávamos coladinhos à Sierra, resolvemos subi-la. Foi quando entramos em contato com um pelotão da coluna de Che. Pediram para que esperássemos porque Che estava percorrendo outros pelotões. Quando ele chegou, sua figura me impressionou: era esbelto, mas usava uma boina esfarrapada e desengonçada. Ele perguntou o que fazíamos ali. Respondemos que tínhamos ido lutar contra a tirania batistiana (de Fulgêncio Batista, ditador apoiado pelos Estados Unidos). Ele retrucou: "Com o quê?" Mostrei um pequeno fuzil 22 e ele começou a rir e disse: "Você acha que com isso vai derrubar Batista? Desce a montanha, se esconde atrás de um arbusto, dá uma gravata num dos soldados que estão aos montes por aí e lhe tire o fuzil". Eu pensei que fosse fácil. Voltei para o meu povoado, onde havia muitos chivatos (informantes do Exército), mas me denunciaram. Consegui escapar do cerco e troquei minha arma por uma escopeta calibre 12. Não era o que Che havia pedido, os soldados nem usavam escopetas. Mas, ao voltar, Che me disse que o importante não era a arma, mas a minha decisão de lutar contra a tirania.

A certeza de vencer era muito forte na Sierra Maestra?

Pombo - A certeza sempre nos acompanhou. Uma coisa que tem Fidel, tinha Che, e é própria de todo revolucionário, é a confiança na vitória, nas massas. Por isso Fidel disse que com cinco fuzis e sete pessoas a revolução estava feita (ao sobreviver com poucos homens após o desastroso desembarque do Granma, onde sobraram, ao todo, 12 homens dos 82 iniciais). Porém, quando seria a vitória, ninguém sabia. Che pensava que fosse demorar mais.

Existiam outros estrangeiros na Sierra, além de Che?

Pombo - Sim. Um mexicano, um francês e, entre os vários estadunidenses, até um sargento veterano da Guerra da Córeia (1950-1953), que foi instrutor e chefe da vanguarda no deslocamento da coluna de Che para o centro da ilha.

O que Che acharia de ver o seu rosto estampado em camisetas, a serviço da máquina capitalista?

Pombo - Penso que ele não gostaria. Eu nunca vi o Che usando uma camiseta de Marx ou de Lênin. Mas eu acho que, se uma pessoa traz o Che no peito, com orgulho, para se sentir motivada, para divulgar quem foi Che, para que se vinculem a ele, essa camiseta é útil. A camiseta ajuda a lembrar. Se você não vê o Che nas camisetas, não pensa nele.

Para a revolução, Che acabou sendo mais importante morto? Como seria se ele estivesse vivo, hoje, com 77 anos? [Nota do Blog Na Práxis - Essa entrevista é de 2005]

Pombo - Penso que ele seria mais importante vivo. Não tanto em relação a sua importância, mas ao que poderia fazer de útil. Ele era um homem com um pensamento em desenvolvimento, com uma capacidade extraordinária de autodidática, com espírito de investigação. Estava escrevendo um livro sobre a economia política do socialismo. Pensava em escrever sobre sua concepção, do ponto de vista filosófico, de como construir uma sociedade socialista para a América, que não fosse a mesma da Europa ou da Ásia. Tinha em mente que, no continente, somos muito parecidos, mas não somos todos cubanos. Hoje, em Cuba, Che representaria uma grande ajuda a Fidel.

Como Che conciliava a vida familiar com a vida revolucionária?

Pombo - O mais importante, para ele, era formar uma sociedade mais justa. Quando prenderam um filho de um dos nossos líderes da independência, Carlos Manoel Céspedes (primeiro fazendeiro a libertar seus escravos para lutarem contra os espanhóis), lhe impuseram a condição de que abandonasse a luta para o rapaz ser libertado. E Céspedes disse: "Não, eu sou o pai de todos os cubanos" - razão pela qual nós o chamamos de Pai da Pátria. Da mesma forma, se Che tivesse que decidir entre a sua família e a construção do socialismo, ou os interesses da pátria, ele decidiria pelos interesses da pátria. Mas isso não quer dizer que Che renegasse a família. Porque ele queria muito bem à sua família. Mas não no sentido estreito, de sua mulher, de seus filhos. Num sentido mais amplo, com uma confiança absoluta na sociedade. Ele sabia que, por sua luta, seus filhos teriam direito à educação, assim como todos os cubanos. Che não se desprende do elemento familiar. Não é como os inimigos do marxismo dizem, que o marxismo destrói a família. Mas o contrário, a família é a base, é a célula da sociedade.

Como Che tratava as crises de asma em meio à guerrilha?

Pombo - Com um tipo de inalador. Quando isso não era possível, Che usava o que os médicos chamam de "motivações primárias". Isto é, na crise, fazia seu corpo reagir a algo maior. Provocava um pequeno corte, para que a infecção gerasse uma febre e assim saía do ataque de asma.

Por que Kabila (líder da resistência anticolonialista congolesa, que em 1997 viria a se tornar presidente da República Democrática do Congo, ex-Zaire) recusava um encontro com Che?

Pombo - Na época, nós não entendíamos como a África funcionava. Só viemos descobrir depois, quando ficamos por 15, 20 anos em Angola. No Congo, começamos a enfrentar uma sociedade que não tinha um conceito de nação, mas um conceito de tribo. Não que o conceito de nação possa ser criado artificialmente, como os colonizadores quiseram impor. Mas um povo que queira lutar por sua pátria precisa ter um conceito de nação. Para nós, isso não fazia sentido porque não temos tribo, somos uma mistura de espanhóis, africanos e chineses. Não temos índios. Eles desapareceram de Cuba. Os espanhóis não tiveram nem a idéia de fazer uma reserva, como fizeram os estadunidenses, e manter ali alguns índios para mostrar a todos: "Vejam, estes são os homens que eram donos de todas estas coisas que estão aqui, e agora não têm nada". Nem isso fizeram os espanhóis. Chefe do que eles chamavam de "exército paralelo", Kabila se encontrou apenas uma vez com Che porque guerrear não fazia parte de sua natureza. Não era um homem latino-americano. Não era como Bolívar, que dizia: "Vamos!". Nunca houve um líder africano à frente de sua tropa, o que era uma coisa inconcebível para um latino, que leva, conduz o povo. Eles não necessitavam nem do contato conosco, não necessitavam da fala, eles mandavam tudo gravado.

Se a guerrilha comandada por Masetti na Argentina tivesse tido êxito, Che não teria ido ao Congo?

Pombo - Sim, realmente, Che foi ao Congo para esperar que as condições na América ficassem mais favoráveis. Fidel lhe ofereceu para ficar em Cuba, mas Che achava que já havia cumprido seu papel com os cubanos e queria ir a outro lugar. Em 1964, ele havia voltado de uma conferência na Organização das Nações Unidas, onde denunciou que os capacetes azuis haviam permitido o assassinato de Lumumba (revolucionário congolês). A meu ver, Che, que admirava Lumumba, se sentiu comprometido com a situação e decidiu ir ao Congo pensando que o movimento de Lumumba estivesse mais vertebrado, mas não estava.

A captura de Ciro Bustos e de Régis Debray (na tentativa de sair da área guerrilheira, foram presos pelo Exército boliviano) foi preponderante para a desestruturação da guerrilha na Bolívia?

Pombo - Não. Nós nos vimos sem a base. Com a experiência da Sierra Maestra, já sabíamos que o camponês só se incorpora quando vê alguma possibilidade de êxito, e uma forte possibilidade de respaldo. De início, nós tínhamos organizado nossa participação na luta boliviana por meio do Partido Comunista, que contava com milhares de militantes jovens dispostos a se engajar na luta. Mas Monje (então presidente do Partido Comunista Boliviano) mudou de lado, nos traiu. Che nunca soube se por covardia política ou pessoal. Ao nos trair, cortou nosso vínculo com o partido, acabou com a fonte onde íamos nos nutrir para gerar uma guerrilha forte, que Che queria desenvolver por um tempo limitado para poder expandi-la à Argentina e ao Peru, onde estavam Bustos e Chino. Não por acaso, de Ñancahuazú, na Bolívia, podia se chegar à Argentina e ao Peru, pela Cordilheira Oriental dos Andes.

Como foram os quatro meses de desencontros nas selvas da Bolívia, entre a coluna de Che e a outra em que estavam Joaquim e Tania (revolucionária alemã-argentina)?

Pombo - Fizemos todo o possível. Che não desistia de achar o grupo de Joaquim. Tanto que ele nos manteve demasiado tempo por ali, mesmo não tendo a intenção de combater na região Sul da Bolívia. Por fim, o Exército nos descobriu e fomos obrigados a iniciar o combate ali mesmo. Originalmente, pensávamos em começar a guerrilha na região Central da Bolívia, no Chapare, onde havia um camponês amigo de Inti - um dos guerrilheiros do grupo de Che _, que organizava os camponeses. Esse camponês não estava comprometido, mas Inti acreditava que ele se incorporaria. Tínhamos, mais ao norte, a possibilidade de que pudessem se incorporar à guerrilha os estudantes recrutados na América, na Europa, na União Soviética, em Praga, além de um conjunto de estudantes de Cuba.

Se houvesse o encontro entre os dois grupos no dia 31 de agosto de 1967, teria sido mera coincidência? (eles se desencontraram por questão de horas, estavam em linha reta, a 3 quilômetros de distância).

Pombo - Convergimos ao mesmo ponto por coincidência. Nosso grupo estava indo para o Chapare. Estávamos bem próximos quando escutamos pelo rádio que o grupo de Joaquim combatia mais ao sul. Então, demos meia volta e nos metemos novamente na zona guerrilheira, atrás deles. Quase os encontramos antes de eles caírem na emboscada (em que morreram). Só voltamos ao Sul na tentativa de encontrar o grupo de Joaquim. Nunca havíamos previsto ir ao Sul porque sabíamos que era mais desprovido de bosques e de água. Foi só por isso que descemos demais ao Sul e se criaram as condições para a emboscada do dia 26 de setembro (onde 3 guerrilheiros são mortos), e, depois, para o desfecho de 8 de outubro (quando Che é feito prisioneiro e morto, no dia seguinte, junto com outros guerrilheiros).

Como era Tânia?

Pombo - Uma mulher excepcional. Suas raízes latinas (era argentina, mas passou a juventude na Alemanha) foram de grande ajuda. Ela tinha a tarefa de ir à Bolívia criar condições de confiabilidade, até que lhe dessem instruções. Houve até um momento em que ela foi um pouco esquecida pela nossa Inteligência. A idéia de Che era preservá-la para que, se necessário, ela pudesse esconder alguém em lugar seguro. Mas ela acabou vindo para a guerrilha. Che tentou tirá-la de lá, o que foi impossível, porque ela já havia sido identificada. Assim, se estragou um trabalho de clandestinidade de três anos. Tânia foi uma revolucionária com grande capacidade de sacrifício. Quando lhe disseram para casar com um boliviano porque fazia falta ela não ter a nacionalidade boliviana, ela se casou. E quando disseram que era preciso dar um fora no boliviano porque ela tinha que sair do país, e que ela devia dar um jeito dele entender, ela o convenceu. Então ela foi "estudar" na Bulgária. Ela era extremamente disciplinada.

Che estaria contente com o desenvolvimento da revolução cubana?

Pombo - Acho que sim, porque quando ele saiu de Cuba fez um avaliação dos avanços da revolução, e justamente decidiu ir porque chegou à convicção de que o processo era irreversível. De que as massas haviam tomado consciência do seu papel de vanguarda, que, para Che, era o partido, era Fidel. Ele acreditava que a vanguarda precisa formar parte da massa a todo instante, sem ser a massa. Che dizia que esse vínculo, de tão próximo, deve fazer com que aquele que está à frente escute a respiração de quem vem atrás.

Por que Benigno traiu a revolução cubana?

Pombo - Para Benigno, pesou a questão material. Quando ele se foi, o processo revolucionário cubano passava por uma etapa difícil, mas não a pior. Os problemas de Cuba não eram graves. Ele tinha uma pequena finca (chácara). Nós somos guajiros (camponeses), não tínhamos base cultural, nem intelectual. Quando você participa de uma luta como essa, começam a te dizer que você é o máximo, e se você acredita, se equivoca. Benigno deixou isso subir à cabeça e acreditou que era herói. Era, sim, uma pessoa de mérito, mas o que fizemos, muitos outros cubanos também fizeram. Estiveram na Venezuela, na Colômbia, na Guatemala e não ficaram conhecidos. O fato de ter participado da epopéia em que morreu Che o atingiu. Além disso, ele se casou com uma mulher da Inteligência Cubana, que falava inglês, francês. Acho que ela tem um peso nisso porque se ela fosse firme quando ele lhe propôs essas coisas, tendo ela mais capacidade intelectual que ele, ela o influenciaria para o caminho correto. Outro problema é que, como camponeses, temos a mente pródiga, imaginamos coisas. Benigno acabou publicando um livro fantasioso, mentiroso, em grande parte.

Por que Benigno sustenta que Fidel abandonou Che?

Pombo - Isso é uma maldade. Benigno tem que agradar o imperialismo, e para isso, tem que dizer as coisas que o imperialismo gosta de ouvir. Quando Che foi à África, com mais de uma centena de cubanos, Fidel não o abandonou. Quando os africanos consideraram que não era conveniente Che estar ali, e ele saiu de lá para Praga, com a Inteligência Cubana dando apoio todo o tempo, Fidel não o abandonou. Quando Che decidiu começar a luta na sua pátria, Fidel permitiu que ele pegasse vinte e tantos companheiros que haviam estado com ele na Sierra, Fidel não o abandonou. O que acontece é que, se Fidel mandasse mais de cem homens à América Latina, como fez 20 anos depois, mandando um exército de 50 mil homens comigo a Angola, a atitude seria vista como intervenção.

A guerrilha, hoje, ainda é um caminho para a libertação dos povos da América Latina?

Pombo - Eu não diria nem que não, nem que sim. Depende das condições concretas de cada país e de cada momento. Hoje, é muito arriscado o surgimento de um movimento guerrilheiro em qualquer país, com a tecnologia que tem o exército inimigo, fundamentalmente o dos Estados Unidos. Mas também não é impossível porque existem guerrilhas na Colômbia, por exemplo, e mesmo com toda essa tecnologia não conseguiram aniquilá-la.

Como o senhor vê o MST?

Pombo - A capacidade organizativa dos sem-terra me impressiona. Eles não podem perder nunca sua convicção. Depois de assentados, não devem se desvincular do movimento. Não importa que você tenha a terra. Por você ter lutado por ela, deve se manter unido, com terra ou sem terra, por solidariedade humana, não digo nem por companheirismo. Isso é o que pode unir as pessoas ao Che. Esse amor pelo próximo que está um pouco mais além dos ditos parâmetros normais, e que lhe deu um conceito superior como ser humano.

O senhor acredita que Chávez vai assumir o papel de Fidel nos próximos anos?

Pombo - O papel de Chávez é assumir a dirigência do seu povo para depois assumir o mesmo papel sobre o restante do continente. Não podemos esquecer que o inimigo de Chávez é o país mais poderoso do mundo. E ele tem sabido lidar com a situação, solidamente, com o apoio das massas pobres, e tendo ainda que ganhar a classe média. O movimento de Chávez é novo. Tem a ver com um socialismo distinto, dentro do pluripartidarismo. Nós, cubanos, somos o farol, mas a Venezuela é a esperança do povo do continente e do Terceiro Mundo por seu potencial econômico, por seu tamanho, por ter fronteiras com tantos países que podem irradiar ainda mais aquilo que o Che queria fazer na Bolívia. Nesse sentido, Chávez tem muito mais vantagens do que nós, lá no meio do Caribe.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Só de faz-de-conta mesmo..."Call of Duty: Black Ops" convida o jogador a assassinar Fidel Castro

"Call of Duty: Black Ops" é o mais novo jogo eletrônico da série "Call of Duty".

"Black Ops" é o termo em inglês para operações clandestinas: assassinatos, sabotagens, sequestros e outras ações frequentemente empregadas, em território estrangeiro, por diversos serviços secretos mundo a fora.

Nesta nova edição, uma das missões é matar Fidel Castro.

Isso gerou uma série de críticas, uma delas está no site Vermelho.

Mas vou limitar-me a reproduzir o que falou o governo cubano a respeito do jogo:

O que o governo dos Estados Unidos não conseguiu fazer em 50 anos, está tentando fazer de maneira virtual.

Só assim mesmo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Soldados resgatam Presidente do Equador


Com apoio popular, exército resgata Rafael Correa, que estava retido por policiais no hospital onde se tratava, por conta dos ferimentos, na tentativa de golpe no Equador, ocorrida ontem.

Uma rebelião policial por conta de supostos cortes de benefícios seria a senha para um golpe trabalhado há tempo pela direita equatoriana. 

Dois policiais teriam morrido no resgate.

Mídia:

De modo muito suspeito, os meios de comunicação privados deixaram de emitir transmissões durante o golpe.

Fidel Castro comenta reação dos EUA:

"O golpe já está perdido. Até (Barack) Obama e (Hillary) Clinton não terão outra alternativa senão condená-lo"

domingo, 19 de setembro de 2010

Fidel Castro e Malcom X: 50 anos de um encontro


O encontro, ocorrido há 50 anos, entre o líder da Revolução cubana, Fidel Castro, e o lutador pelos direitos civis nos Estados Unidos, Malcom X, foi celebrado neste domingo, no Harlem, tradicional bairro negro de Nova Iorque.

Várias organizações militantes recordam a histórica reunião entre Fidel Castro e Malcom X em um quarto do hotel Theresa em 1960.

O hotel Theresa localiza-se no coração do Harlem. Fidel estava em Nova Iorque para a Assembleia Geral da ONU, quando, com problemas de segurança e hostilizado pelas autoridades locais, resolveu hospedar-se nesse hotel barato do marginalizado bairro.
A população local e ativistas negros fizeram a segurança do único estadista em toda história  a hospedar-se por lá. 


Malcom X  nutria profundo respeito pela revolução cubana, e a enxergava como um paradigma para as lutas dos oprimidos do continente. 

O líder negro foi assassinado 5 anos depois, na mesma cidade, ao dar um discurso.

Esse encontro gerou um livro, que tem até tradução para o português:

Fidel & Malcolm X - Lembranças de um Encontro, de Rosemari Mealy, editado pela Editora Casa Jorge, em 1995.


Em 1995, Fidel retorna ao Harlem, como pode ser conferido no Youtube:



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Parabéns FIDEL CASTRO

O líder cubano Fidel Castro, um dos ícones do século 20, completa hoje 84 anos de vida. A comemoração não é apenas pelo aniversário, mas também pela saúde recuperada do Comandante e seu retorno à cena política cubana, surpreendendo os que o consideravam definitivamente aposentado, gagá e incapacitado para mais nada além da espera do fim, sem falar nos gusanos de Miami, que torciam como nunca por sua morte e, assim, pela morte da Revolução cubana.

Por Luiz Manfredini*
A rigor, Fidel nunca deixou a cena política de Cuba. Nem mesmo no período em que adoeceu gravemente, transferindo por isso a chefia do Estado e do governo a Raúl Castro e retirando-se para um tratamento e uma convalescença que ocupou os quatro últimos anos. Esse recolhimento compulsório não evitou que Fidel recebesse personalidades e iniciasse a publicação de suas reflexões no "Granma". Ainda que à distância, sua imagem mítica pairou dia e noite sobre a Ilha.

A diferença é que agora o Comandante voltou à cena em pessoa. Subitamente reapareceu no Centro Nacional de Pesquisas Científicas, em sete de julho último. E não parou mais. Seguiram-se a visita ao Centro de Estudos da Economia Mundial, a participação num programa de TV, encontros com intelectuais, jovens comunistas e uma centena de embaixadores cubanos na sede da chancelaria e, ponto alto, sua participação numa sessão extraordinária do parlamento nacional. Vestindo a jaqueta verde-oliva, a das suas “mil batalhas”, discursou longamente sobre a ameaça de uma guerra nuclear que, não sendo evitada, fatalmente destruirá a humanidade.

Fidel vem sendo das personalidades mundiais mais importantes nos últimos 50 anos. E seguirá assim, a julgar pela vitalidade, entusiasmo e discernimento que vem ostentando em sua militância mais recente. Um Fidel sempre altivo, insubmisso, inquieto e revolucionário. Um Fidel segundo o qual “se alguém não faz, o tempo todo, tudo aquilo que pode e até mais do que pode, é exatamente como se não fizesse absolutamente nada”. E ele faz.

*Jornalista e escritor

Retirado do Vermelho

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O Novo Livro de Fidel Castro

Nas suas última coluna, Fidel fala do seu novo livro:

A vitória estratégica

EM poucos dias será publicado o livro no qual, sob o título "A vitória estratégica", narro a batalha que livrou do extermínio o pequeno Exército Rebelde.

Começo com uma introdução na qual explico minhas dúvidas sobre o título que lhe colocaria "… não sabia se chamá-la ‘A última ofensiva de Batista’ ou ‘Como 300 derrotaram 10 mil′" que pareceria um conto de ficção científica.

Inclui uma pequena autobiografia: "Não desejava esperar que se publicassem um dia as respostas a incontáveis perguntas que me fizeram sobre a infância, a adolescência e a juventude, etapas que me converteram em revolucionário e combatente armado".

O título que finalmente decidi foi "A vitória estratégica".

Está dividido em 25 capítulos, contém abundantes fotografias com a qualidade possível naquelas circunstâncias e os mapas pertinentes.

Finalmente, apresentam-se esquemas gráficos sobre os tipos de armas que utilizaram ambos os adversários.

Nas páginas finais do capítulo 24 da narração fiz afirmações que foram premonitórias.

No último parte que escrevi para ser lido na Rádio Rebelde em sete de agosto, no dia seguinte de concluída a batalha final de Las Mercedes, expressei:

"A ofensiva foi liquidada. O maior esforço militar que se tenha realizado em nossa história Republicana concluiu no mais espantoso desastre que pôde imaginar-se o soberbo ditador, cujas tropas em plena fugida, depois de dois meses e meio [de] derrota em derrota, estão assinalando os dias finais de seu regime odioso. A Serra Maestra já está totalmente livre de forças inimigas".

No livro sobre "A vitória estratégica" se explica textualmente:

"A derrota da ofensiva inimiga, depois de 74 dias de incessante combate, significou a guinada estratégica da guerra. A partir desse momento a sorte da tirania ficou definitivamente jogada, na medida em que se fazia evidente a iminência de seu colapso militar".

"Nesse mesmo dia redigi uma carta endereçada ao major general Eulogio Cantillo, que dirigiu toda a campanha inimiga do posto de comando da zona de operações, instalado em Bayamo. Confirmei a Cantillo que se encontravam em poder de nossas forças aproximadamente 160 soldados prisioneiros, entre eles muitos feridos, e que estávamos em disposição de estabelecer de imediato as negociações pertinentes para sua entrega. Após complicadas gestões, esta segunda entrega de prisioneiros se efetuou vários dias depois em Las Mercedes.

"Durante esses 74 dias de intensos combates para o rechaço e a derrota da grande ofensiva inimiga, nossas forças sofreram 31 baixas mortais. As notícias tristes jamais desalentaram o espírito de nossas forças, apesar de que a vitória teve um sabor amargo muitas vezes. Ainda assim, a perda de combatentes pôde ser muito superior, levando em conta a intensidade, duração e violência das ações terrestres e dos ataques aéreos, se não o foram foi devido à extraordinária perícia atingida por nossos guerrilheiros na agreste natureza da Serra Maestra e à solidariedade dos rebeldes. Muitas vezes, feridos graves salvaram sua vida, em primeiro lugar, porque seus companheiros fizeram o impossível por transladá-los aonde os médicos pudessem assisti-los, e tudo isso apesar do abrupto do terreno e do som das balas em meio aos combates".

"Ao longo destas páginas fui mencionando os nomes dos tombados, mas quero relacioná-los de novo a todos aqui para oferecer duma só vez o quadro completo de nossos mártires, merecedores de uma recordação eterna de respeito e admiração de todo nosso povo". Eles são:

"Comandantes: Andrés Cuevas, Ramón Paz e René Ramos Latour, Daniel".

"Capitães: Ángel Verdecia e Geonel Rodríguez".

"Tenentes: Teodoro Banderas, Fernando Chávez, o Artista, e Godofredo Verdecia".

"Combatentes: Misaíl Machado, Fernando Martínez, Albio Martínez, Wilfredo Lara, Gustavo; Wilfredo González, Pascualito; Juan de Dios Zamora, Carlos López Mas, Eugenio Cedeño, Victuro Acosta, o Bayamés; Francisco Luna, Roberto Corría, Luis Enrique Carracedo, Elinor Teruel, Juan Vázquez, Chan Cuba; Giraldo Aponte, o Marinheiro; Federico Hadfeg, Felipe Cordumy, Lorenzo Véliz, Gaudencio Santiesteban, Nicolás Ul, Luciano Tamayo, Ángel Silva Socarrás e José Díaz, o Galeguinho".

"Colaboradores camponeses: Lucas Castillo, outros membros de sua família, e Ibrahim Escalona Torres".

"Honra e glória eterna, respeito infinito e carinho para os que tombaram nessa época".

"O inimigo sofreu mais de mil baixas, delas más de 300 mortos e 443 prisioneiros, e não menos de cinco grandes unidades completas de suas forças foram aniquiladas, capturadas ou desarticuladas. Ficaram em nosso poder 507 armas, incluídos dois tanques, dez morteiros, várias bazucas e doze metralhadoras calibre 30".

"A tudo isso haveria que acrescentar o efeito moral deste desenlace e sua importância na marcha da guerra: a partir desse momento, a iniciativa estratégica ficava definitivamente nas mãos do Exército Rebelde, dono absoluto, também, dum extenso território ao qual o inimigo não tentaria sequer penetrar de novo. A Serra Maestra, efetivamente, ficava libertada para sempre".

"A vitória sobre a grande ofensiva inimiga do verão de 1958 marcou a viragem irreversível da guerra. O Exército Rebelde, triunfante e extraordinariamente fortalecido pela quantidade de armas conquistadas, ficou em condições de iniciar sua ofensiva estratégica final".

"Com estes acontecimentos começou uma nova e última etapa na guerra de libertação, caracterizada pela invasão ao centro do país, a criação do Quarto Front Oriental e do Front de Camagüey. A luta se estendeu em todo o país. A grande ofensiva final do Exército Rebelde levou, com a fulminante campanha de Oriente e de Las Villas, à derrota definitiva do Exército da tirania e, consequentemente, ao colapso militar do regime de Batista e à tomada do poder pela Revolução triunfante".

"Na contra-ofensiva vitoriosa de dezembro desse ano, decidiu-se o triunfo com aproximadamente 3 mil homens equipados com armas arrebatadas ao inimigo".

"As colunas do Che e de Camilo, avançando pelas planícies do Cauto e de Camagüey, chegaram ao centro do país. A antiga Coluna 1 treinou novamente mais de mil recrutas na escola de Minas del Frío, e com chefes que surgiam de suas próprias fileiras, tomaram os povos e as cidades na estrada central entre Bayamo e Palma Soriano. Novas tanquetas T-37 foram destruídas, os tanques pesados e a aviação de combate não puderam impedir a tomada de cidades centenas de vezes maiores que o povoado de Las Mercedes".

"Em seu avanço, à Coluna 1 aderiram as forças do Segundo Front Oriental Frank País. Assim conquistamos a cidade de Palma Soriano em 27 de dezembro de 1958".

"Exatamente em 1º de janeiro de 1959 — a data assinalada em carta a Juan Almeida antes de iniciar-se a última ofensiva da ditadura contra a Serra Maestra —, a greve geral revolucionária, decretada através da Rádio Rebelde desde Palma Soriano, paralisou o país. O Che e Camilo receberam ordens de avançar pela estrada central rumo a capital, e não houve forças que fizeram resistência".

"Cantillo, em reunião comigo, com Raúl e Almeida reconheceu que a ditadura tinha perdido a guerra, mas pouco depois na capital realizou manobras golpistas, contrarrevolucionárias e pró-imperialistas e descumpriu as condições pactuadas para um armistício. Apesar disso, em três dias estavam a nossa disposição as 100 mil armas e os navios e aviões que pouco antes tinham apoiado e permitido a fugida do último batalhão que penetrou na Serra Maestra".

Uma incansável equipe do pessoal do Gabinete de Assuntos Históricos do Conselho de Estado, designers do grupo Creativo de Casa 4, sob a direção de professores assistentes; com a cooperação do cartógrafo Otto Hernández, o general-de-brigada Amels Escalante, o desenhista Jorge Oliver, o jovem designer Geordanis González, sob a direção de Katiuska Blanco, jornalista e escritora brilhante e incansável, são os atores principais desta proeza.

Pensava que este livro tardaria meses em ser publicado. Agora sei que no início do mês de agosto estará já na rua.

Eu, que trabalhei meses no tema depois de minha grave doença, agora estou animado para continuar escrevendo a segunda parte desta história que se denominaria, se a equipe não sugere outro nome, "A contra-ofensiva estratégica final". 

Fidel Castro Ruz
27 de julho de 2010 

Original em Granma Digital