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domingo, 9 de maio de 2010

Marechal Tito é lembrado nostalgicamente na ex-Iugoslávia

O fascismo nasceu sob os auspícios da reação internacional, que o criou e desenvolveu visando dele servir-se para atacar o país do socialismo, a grande União Soviética, para atacar a classe operária e sua vanguarda, o Partido Comunista, e para golpear todas as demais forças progressistas em todos os países do mundo.
 (Tito, em discurso de 1947)

No último dia 4, aos prantos, pessoas da Eslovênia, Bósnia, Sérvia , Croácia, Montenegro, Kosovo e Macedônia recordam os 30 anos da morte de Josip Broz Tito.

Marechal Tito, durante a segunda guerra, liderou os partisans: a resistência guerrilheira às forças de Hitler.
Foi a única nação do leste europeu a expulsar os nazistas sem ajuda da URSS.
E essa foi uma das razões que deram grande autoridade moral a Tito, o suficiente para dar uma banana às ingerências de Stalin e construir o modelo iugoslavo de socialismo, o que acabou lhe rendendo a acusação de ser “capitalista”/“trotskista” por parte do soviético.
Seu governo dialogava inclusive com nações do ocidente capitalista. O líder partisan foi , junto com Fidel Castro, fundador do movimento dos países não alinhados, as nações do terceiro mundo que buscavam seu caminho sem funcionar como satélites do imperialismo estadunidense ou do stalinismo.
Os cidadãos do país balcânico podiam viajar, sem restrições, a qualquer lugar do mundo, as artes não sofreram censura e periódicos críticos ao governo circulavam livremente. 


O sistema socialista da Iugoslávia era fundamentalmente calcado nas práticas de autogestão operária, onde as empresas não apenas eram gerenciadas por seus trabalhadores, como também eram sua propriedade. Solução de Tito para a garantia da eficiência econômica na produção.
Alguns teóricos consideram o sistema como o mais próximo do chamado comunismo de conselhos operários, enquanto outros, mais críticos, vêem uma série de problemas como o corporativismo, por exemplo, onde as categorias de trabalhadores passariam a alimentar rivalidade entre si, por conta de coisas como distribuição dos lucros e benefícios.



Todo caso, o maior mérito de Tito foi o de, enquanto esteve vivo, conseguir acabar com o pior problema da região:
A secular guerra fraticida entre as várias etnias existentes.
Após sua morte, e com o colapso do stalinismo no leste europeu, os nacionalismos afloraram, gerando uma guerra sangrenta que partiu a velha Iugoslávia em várias repúblicas.
Na Alemanha, existe o fenômeno da Ostalgie ("nostalgia do leste"), onde os alemães da antiga DDR (Alemanha oriental) mostram-se profundamente decepcionados com a chegada da capitalismo, e saudosos de uma época onde se trabalhava menos, inexistia desemprego e havia seguridade social total.
Na península balcânica, é o fenômeno da Yugo-nostalgia que salta aos olhos:
Pelas mesmas razões da Ostalgie, acrescidas do fator paz; é consenso que o morticínio gerado pelas guerras étnicas nos anos 90 não precisava ter acontecido.

Vejam estes dois vídeos:

O sérvio Petkovic (um "cara que venceu no capitalismo") dá um corte seco em Ana Maria Braga (militante do Cansei) e faz defesa do socialismo:



Vídeo com tributo a Tito, um dos vários que proliferam pela internet. 
"Druze Tito Mi Ti Se Kunemo" pode ser traduzido como "Camarada Tito, estamos comprometidos com você"




Para não falarem que este Blog está tendencioso demais, coloco link para uma reportagem sobre o assunto na insuspeitíssima "Rádio Europa Livre" (criada na guerra fria pelos EUA para fazer guerra ideológica contra a URSS, ainda mantém suas transmissões no leste europeu)




E aqui vai a indicação de um bom  Blog: Yugoboy - Um Carioca na ex-Iugoslávia

A citação feita no início da postagem está contida num discurso chamado "A Frente Popular na Iugoslávia".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Neto de Josip Tito cria novo partido na ex-Iugoslávia

Veja o que já escrevemos sobre Tito por aqui.
 

Joska Broz apresentou na segunda-feira (6) às autoridades sérvias as assinaturas necessárias para o registro formal do que declarou ser o Partido Comunista. Broz afirmou que o partido é resultado da união de diversos grupos comunistas.

Em 29 de novembro milhares de ex-iugoslavos celebraram a antiga festa nacional do dia de criação da República Socialista Federada da Iugoslávia, destruída criminosamente pela ação combinada do imperialismo germano-americano e das burguesias fascistas locais.

Milhares de cidadãos desprovidos de sua pátria comum se afirmam como de "identidade nacional" iugoslava, em claro desafio à contrarrevolução reinante.

Na Sérvia, 80.721 pessoas se declaram "iugoslavas", tendo se convertido na quarta minoria nacional, depois dos húngaros, bósnios e ciganos da etnia Rom.

Na província de Voivódina são mais de 50 mil "iugoslavos", em Belgrado são quase 22 mil e em Subotica 8,5 mil.

Na realidade, milhares ainda se declarariam "iugoslavos", caso não fossem submetidos ao terror dos burgueses que dominam a Eslovênia, a Croácia, a Bósnia, Montenegro, Sérvia e Macedônia.

Em Zagreb, diante do chauvinismo dos Ustachás (fascistas croatas) nasceu a "Aliança dos Iugoslavos", que hoje exige o reconhecimento.

Original em Vermelho
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Michael Löwy: A Teologia da Libertação: Leonardo Boff e Frei Betto - III

Amigo próximo de Leonardo Boff (publicaram alguns livros juntos), Frei Betto é, sem dúvida, um dos mais importantes teólogos da libertação do Brasil e da América Latina e um dos principais animadores das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica (JEC) no início dos anos 60, Carlos Alberto Libânio Christo (seu nome verdadeiro) começou sua educação espiritual e política com Santiago Maritain, Emmanuel Mounier, o padre Lebret e o grande intelectual católico brasileiro Alceu Amoroso Lima, porém, durante sua atividade militante na União Nacional dos Estudantes (UNE), descobriu O Manifesto Comunista e A Ideologia Alemã. Quando entrou como noviço na ordem dos dominicanos, em 1965, naquela época um dos principias focos de elaboração de uma interpretação liberacionista do cristianismo, já havia tomado firmemente a resolução de consagrar-se à luta da revolução brasileira [4].
Impressionado com a pobreza do mundo e pela ditadura militar estabelecida em 1964, incorpora-se a uma rede de dominicanos que simpatizam ativamente com a resistência armada contra o regime. Quando a repressão se intensificou, em 1969, socorreu a inúmeros revolucionários, ajudando-os a esconder-se ou a cruzar a fronteira para o Uruguai ou para a Argentina. Essa atividade custou-lhe cinco anos de prisão, de 1969 a 1973.
Em um livro fascinante publicado no Brasil e reeditado mais de dez vezes, Batismo de Sangue. Os dominicanos e a morte de Carlos Marighella (Río de Janeiro, Ed. Bertrand, 1987), traça o retrato do dirigente do principal grupo revolucionário armado, assassinado pela polícia em 1969, bem como o de seus amigos dominicanos presos nas rodas da repressão e destroçados pela tortura. O último capítulo está consagrado à trágica figura de Frei Tito de Alencar, tão cruelmente torturado pela polícia brasileira que jamais recobrou seu equilíbrio psíquico: libertado da prisão e exilado na França, sofreu uma aguda mania de perseguição e cometeu suicídio em 1974.
As Cartas da Prisão de Betto, publicadas em 1977, mostram seu interesse pelo pensamento de Marx, a quem designava, para burlar a censura política, "o filósofo alemão". Em uma carta de outubro de 1971 a uma amiga, abadesa beneditina, observava: "a teoria econômico-social do filósofo alemão não teria existido sem as escandalosas contradições sociais provocadas pelo liberalismo econômico, que o conduziram a percebê-las, analisá-las e estabelecer princípios capazes de sobrepô-los" [5].
Depois de sua libertação da prisão, em 1973, Frei Betto consagrou-se à organização das comunidades de base. Durante os anos seguintes publicou vários folhetos que, em linguagem simples e inteligível, explicavam o sentido da Teologia da Libertação e o papel das CEBs. Logo, converteu-se em um dos principais dirigentes dos encontros intereclesiais nacionais, onde as CEBs de todas as regiões do Brasil intercambiam suas experiências sociais, políticas e religiosas. Em 1980 organizou o 4º Congresso internacional dos Teólogos do Terceiro Mundo.
Desde 1979 Betto é responsável pela Pastoral Operária de São Bernardo do Campo, cidade industrial do subúrbio de São Paulo, onde nasceu o novo sindicalismo brasileiro. Sem vincular-se a nenhuma organização política, não escondia suas simpatias pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Após a vitória eleitoral do candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, em 2001, foi designado pelo novo presidente para dirigir o Programa "Fome Zero"; no entanto, descontente com a orientação econômica do governo, prisioneiro dos paradigmas neoliberais, demitiu-se de seu posto dois anos depois.
Enquanto alguns teólogos tentam reduzir o marxismo a uma "mediação sócio-analítica", Betto defende, em seu ensaio de 1986, Cristianismo e Marxismo, uma interpretação muito mais ampla da teoria marxista que inclui a ética e a utopia: "o marxismo é, sobretudo, uma teoria da práxis revolucionária (...). A prática revolucionária sobrepõe-se ao conceito e não se esgota na análise estritamente científica porque, necessariamente, inclui dimensões éticas, místicas e utópicas (...). Sem essa relação dialética teoria-práxis, o marxismo se esclerosa e se transforma em ortodoxia acadêmica perigosamente manipulável pelos que controlam os mecanismos do poder". Esta última frase é, sem dúvida, uma referencia crítica a URSS e aos países do socialismo real que constituem, em sua maneira de ver, uma experiência deformada por sua "ótica objetivista", sua "tendência economicista" e, sobretudo, por sua "metafísica do Estado".
Betto e Boff, como a imensa maioria dos teólogos da libertação, não aceitam a redução, tipicamente liberal, da religião a um "assunto privado" do indivíduo. Para eles, a religião é um assunto eminentemente público, social e político. Essa atitude não é necessariamente uma oposição à laicidade; de fato, o cristianismo da libertação situa-se nas antípodas do conservadorismo clerical:

-Predicando a separação total entre a Igreja e o Estado e a ruptura da cumplicidade tradicional entre o clero e os poderosos.
-Negando a idéia de um partido ou um sindicato católico e reconhecendo a necessária autonomia dos movimentos políticos e sociais populares.
-Rechaçando toda idéia de regresso ao "catolicismo político" pré-crítico e sua ilusão de uma "nova cristandade".
-Favorecendo a participação dos cristãos nos movimentos ou partidos populares seculares.
Para a Teologia da Libertação não existe contradição entre essa exigência de democracia moderna e secular e o compromisso dos cristãos no âmbito político. Trata-se de dois enfoques diferentes da relação entre religião e política: desde o ponto de vista institucional é imprescindível que prevaleça a separação e a autonomia; porém, no âmbito ético-político o imperativo essencial é o compromisso.