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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

“Os Estados Unidos nos devem resposta", exige governo argentino

“Os Estados Unidos nos devem uma resposta”. Com essas palavras, o chanceler Héctor Timerman anunciou o envio a Washington de uma nota de protesto formal pelo material bélico que militares desse país tentaram ingressar sem autorização na Argentina, como antecipou o jornal Página 12. Assim levantou-se a bandeira na disputa bilateral que se desatou por meio do seqüestro do “material sensível” não declarado no vôo da Força Aérea que chegou quinta-feira passada a Buenos Aires com elementos para um curso que seria dado aos membros da Polícia Federal: “Queremos que Estados Unidos cumpram as leis argentinas”, completou

“Quase um terço da carga não figurava na lista de boa fé” que havia sido entregue à embaixada, detalhou Timerman, que também esclareceu que “tudo o que estava na lista tinha sido autorizado” a ingressar no país, no entanto foram retidas drogas, psicotrópicos, elementos para interceptar comunicações, equipamentos de GPS e manuais de operação em distintos idiomas, que não figuravam no manifesto. Apesar dos reiterados pedidos do Departamento de Estado este material não será devolvido até que “as autoridades argentinas que investigam este caso não necessitem mais”, sustentou o chanceler, que voltou a pedir aos estadunidenses “colaboração” para esclarecer o episódio o mais breve possível.

“O Governo da República Argentina expressa seu mais enérgico protesto frente à situação que se colocou com a verificação da carga”, sustentou a carta formal que a Chancelaria enviou na segunda-feira à noite. “Até o momento – continua -, nem a embaixada nem o governo dos Estado Unidos da América pronunciaram explicações satisfatórias que esclareçam a presença do material não declarado no carregamento que chegou ao Aeroporto de Ezeiza (internacional de Buenos Aires), assim como tão pouco o uso que se pretendia dar uma vez ingressado no país”. O comunicado também “lamenta” as “imprecisões e omissões" na informação proporcionada pelas autoridades estadunidenses sobre o tema, que foi repetida sem correções por vários meios locais durante o dia de ontem e reitera o convite à embaixada a que colabore com a investigação “a fim de esclarecer” o episódio.

“Temos toda a disposição de poder seguir colaborando em forma respeitosa em um tema que é tão importante para todos como é a insegurança cidadã", havia assegurado algumas horas antes o subscretário de Estado Adjunto para o Hemisfério Ocidental, Arturo Valenzuela. Ainda - segundo Timerman - Washington "em nenhum momento" pediu desculpas nem aceitou formar parte da investigação. "Não nos deram nenhuma explicação - acrescentou -, nos devem uma resposta". Também que a Argentina não está acusando o governo dos Estados Unidos pelo epsódio: "Quiçá não sabiam", sugeriu o ministro das Relações Exteriores, que sustentou a melhor forma que tem de corroborar sua inocência proporcionando sua ajuda na investigação.

Por outra parte, Valenzuela acrescentou que o governo dos Estado Unidos "espera a devolução imediata" do material sequestrado, e o chanceler argentino descartou esta possibilidade, fundamentando que "o mais correto é que esse material seja retido pela Justiça e pela Alfândega, que é o que faria qualquer país normal preocupado com a sua segurança". O chanceler insistiu que "as leis estão para que todos cumpram" e que os Estados Unidos não estão excluídos dessa norma por serem "um país maior ou poderoso" que outros. "Quando as autoridades argentinas que têm competência não os necessitarem mais para investigação, se o solicitam serão devolvidos" os materiais.

Segundo detalhou a Chancelaria, na quinta-feira passada, depois da chegada da aeronave estadunidense "ocorreram controles que, tanto na Argentina como nos Estados Unidos da América, são normais e de rotina para um carregamento com estas características" no qual descobriram o equivalente a uma habitação de três metros quadrados) de material que não constava na lista. "Estamos muito preocupados com a segurança na Argentina", assegurou o ministro, que lembrou os dois atentados sofridos por este país na década de 90 como justificativa para intensificar medidas em relação ao ingresso de elementos "sensíveis" que podem ser utilizados para atacar a população civil.

Entre o material apreendido há "armamentos, drogas psicotrópicas, assim como vários elementos de armazenamento de dados rotulados como secretos, instrumentos para o controle de comunicações e emissões de sinais e manuais operativos", além de "um baú com medicamentos vencidos". Timerman declarou que "tudo que estava incluído na lista foi autorizado" a entrar no país, incluindo uma quantidade importante de munições de chumbo para armas de guerra e "o que não entrou" - concluiu - "é porque não estava na lista".

Em Washington reclamaram que, diante de um episódio semelhante que ocorreu em agosto do ano passado, foi permitido o regresso do avião com todo o material que continha. "Da outra vez não passou pela intervenção da embaixada", que pediu que o avião regressasse sem descarregar seu conteúdo que, segundo explicou o ministro, "não coincidia em nada com o documento previamente declarado".

Questionados, funcionários do governo argentino concordaram que não há uma intenção política nem militar por trás deste episódio. Na Casa Rosada, sustentam, mais do que a tentativa de entrar com estes elementos o que incomodou foi Washington ter respondido com mentiras que deixam o país mal "para justificar sua gafe". De todas as formas, tanto Valenzuela como Timerman declararam várias vezes que "a relação bilateral é boa" e que não está em risco por causa deste fato.


Original em Brasil de Fato

Argentina intercepta avião militar dos EUA com armas e drogas

Avião militar estadunidense tentou entrar com carregamento não declarado


Horacio Verbitsky


O governo da Argentina impediu a entrada de uma "carga sensível" secreta que chegou ao aeroporto internacional de Buenos Aires, em um voo da Força Aérea dos Estados Unidos e sobre cujo emprego não foram oferecidas explicações satisfatórias. A expressão "carga sensível" foi utilizada na segunda-feira passada pela Conselheira de Assuntos Administrativos Dorothy Sarro ao solicitar autorização para que um caminhão com reboque pudesse ingressar na plataforma de operações. O enorme C17, um cargueiro Boeing Globmaster III, maior do que os conhecidos Hércules, chegou na tarde de quinta-feira com um arsenal de armas poderosas para um curso sobre manejo de crise e tomada de reféns oferecido pelo governo dos Estados Unidos ao Grupo Especial de Operações da Polícia Federal (GEOF), que deveria acontecer durante fevereiro e março.
O governo estima que o custo total do transporte e do curso giram em torno de dois milhões de dólares. O curso estava autorizado pelo governo argentino, mas quando a equipe verificou o conteúdo da carga com a lista entregue de antemão, apareceram canhões de metralhadoras, uma carabina e uma estranha mala que não haviam sido incluídas nas declarações. Embora o curso seja destinado às forças policiais argentinas, a carga chegou em um transporte militar e, no aeroporto, foi recebida por funcionários militares e de defesa, os coroneis estadunidenses Edwin Passmore e Mark Alcott. Todas as caixas tinham o selo da 7ª Brigada de Paraquedistas do Exército com sede na Carolina do Norte. Tentaram passar de forma clandestina mil pés cúbicos, equivalentes a um terço da carga que chegou no avião, depois de fazer escalas no Panamá e em Lima.

Doze especialistas militares
A nota que a embaixadora Vilma Martínez enviou em novembro ao ministro de Justiça Julio Alak, que até então também era responsável pela segurança, recordava que a primeira fase do treinamento ao GEOF para o resgate de reféns havia sido realizado em abril, "por meio do qual nos foi solicitado realizar outro mais avançado". Em outra nota, enviada em 21 de dezembro à ministra de Segurança Nilda Goré, que havia assumido o cargo cinco dias antes, Vilma Martínez informou que Alak havia aprovado a realização do curso e que, para ministrá-lo, chegariam doze "especialistas militares estadunidenses". Cursos semelhantes foram realizados entre 1997 e 1999, na presidência de Carlos Menem, e 2002, durante os meses em que o ex-senador Eduardo Duhalde cumpriu um período interino no Poder Executivo. O curso não aconteceu durante o governo de Néstor Kirchner e foram retomados em 2009, com o atual governo. O novo curso, de cinco semanas, estava programado para agosto de 2010, mas teve que ser adiado por um episódio semelhante. Naquele momento foi a embaixadora Vilma Martínez que se negou a receber a carga porque a numeração das armas não coincidia com a da lista prévia, o que mostra os conflitos que essa prática produz dentro do próprio governo estadunidense. "Isso é uma vergonha", disse então Martínez, antes de devolver a carga à Carolina do Norte. Por ordem da presidente Cristina Kirchner, funcionários da Chancelaria e dos Ministérios de Planejamento Geral e da Segurança, da AFIP e da Aduana supervisionaram o procedimento. Logo se uniram técnicos dos ministérios de Saúde e do Interior.

Os meninos da maleta
Em seu livro já clássico "A missão. Promovendo a guerra e Mantendo a Paz com os Militares da América" (The Mission. Waging War and Keeping Peace with America’s Military), publicado em 2003, a jornalista do jornal The Washington Post Dana Priest descreveu a dramática primazia do Pentágono na formulação e execução da política externa estadunidense. Com mais de mil pessoas, o Comando Sul supera a quantidade de especialistas na América Latina das secretarias de Estado, Defesa, Agricultura, Comércio e do Tesouro juntas. Esse desequilíbrio não parou de crescer, e os Estados Unidos tentam exportá-lo a países sob sua influência, que são quase todos. Quando anoiteceu na quinta-feira, Cristina Kichner ordenou selar a mala e retomar a tarefa no dia seguinte, para o qual determinou que a Chancelaria e o Ministério do Interior enviassem uma equipe técnica capacitada para entender do que se tratava. Durante seis horas na sexta-feira, vários marinheiros dos Estados Unidos se sentaram em círculo sobre a maleta, o que sugere a importância que atribuíam a seu conteúdo. Segundo os estadunidenses, trata-se de um software e de material sensível para segurança. Um coronel disse que o conteúdo da mala não poderia ser revelado a céu aberto porque poderia revelar segredos aos satélites que sobrevoavam naquele momento. O avião também continha uma carga com propaganda para ser entregue aos policiais argentinos, que incluía chapéus, coletes e outros presentes. O chanceler Héctor Timermam permaneceu quase todo o dia no aeroporto, junto com o secretário de Transporte Juan Pablo Schiavi, em cumprimento às instruções presidenciais, junto com a equipe de Polícia de Segurança Aeroportuária, da Aduana, da AFIP e com os principais diretores dos setores de Informática, Tecnologia, Segurança e Sistemas do Ministério do Interior. Também intervieram duas inspetoras do Instituto Nacional de Medicamentos (Iname) e da Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (Anmat).
O juiz penal econômico Ezequiel Berón de Estrada interveio. A embaixada retirou do aeroporto sua equipe hierárquica e se negou a consentir a abertura da mala. Depois de um dia completo de puxões e empurrões, Timerman informou que usaria sua autoridade legal para abri-la. Ele estava acompanhado da gestora principal Patricia Adrianma Rodríguez Muiños, da seção de Importações da Polícia Federal, a quem estava dirigida a carga. Ao comprovar a decisão oficial de prosseguir, e vencido o prazo final de uma hora fixado por Timerman, a embaixada pediu dez minutos de prorrogação até a chegada da chefe de imprensa, Shannon Bell Farrell, ao aeroporto. Tanto ela como o funcionário Stephen Knute Kleppe disseram que não tinham a chave do cadeado. Timerman decidiu que a Aduana abriria o cadeado com um alicate. Quando isso aconteceu, na tarde de sexta-feira, apareceram equipamentos de trasmissão, mochilas militares, medicamentos que, segundo os funcionários, estavam vencidos, pendrives, cujo conteúdo será analisado por especialistas, entorpecentes e drogas estimulantes do sistema nervoso. Entre o material havia três aparelhos para interceptar comunicações. Dentro da maleta também apareceu um envelope supersecreto de pano verde. Como a equipe da embaixada disse que não tinha sua chave, também foi aberto por meios investigativos.
Em seu interior havia dois pendrives rotulados como "secretos", uma chave I2 de software para informação; um disco rígido também marcado como "secreto". Códigos de comunicações encriptados e um folheto traduzido em quinze idiomas, com o texto: "Sou um soldado dos Estados Unidos. Por favor, informe a minha embaixada que fui preso pelo país". Nenhum desses materiais coincide com as especificações que a embaixada enviou à Chancelaria sobre a índole do curso que devia ser ministrado para o resgate de reféns. Depois de presenciar essas descobertas, os funcionários da embaixada decidiram se retirar, apesar do pedido oficial para que continuassem ali, e não assinaram a ata. Na quinta-feira o coronel Alcott disse que não sabia que algo assim houvesse acontecido em nenhum lugar do mundo. As armas e a mala não declarada foram recolhidas e a verificação de seu conteúdo continuou. Por exemplo, os antibióticos, anti-histamínicos, complexos vitamínicos, protetores solares e hormônios encontrados estariam vencidos, segundo suas embalagens. No entanto, o governo quer verificar se tratam-se dos medicamentos identificados nas embalagens e se estão mesmo vencidos. O restante do material, que coincidia com a declaração prévia, foi transportada em um frete da embaixada até a sede da Polícia Montada na rua Cavia. Fontes da embaixada informaram que, em Washington, estava sendo preparado um documento com a posição oficial e que acreditavam que o treinamento seria suspenso. O Departamento de Estado citou o embaixador argentino Alfredo Chiaradía e expressou sua "surpresa" pelo procedimento já que "os Estados Unidos desejam manter relações amistosas com a Argentina". Curiosa forma de conseguir isso. Qualquer argentino, civil ou militar, que tentar entrar com armas ou drogas não declaradas nos Estados Unidos iria preso imediatamente.

Original em Brasil de Fato

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O torturador argentino Emilio Massera, diretor da Esma, bateu as botas



Esse merecia durar cem anos...

Emilio Massera, um dos membros da Junta Militar que assumiu o poder na Argentina em 1976, morreu na segunda-feira aos 85 anos, segundo a imprensa local.

Ele estava sob prisão domiciliar por ter sido condenado por torturas, homicídios e confisco de imóveis e empresas de presos políticos. Estava acamado e debilitado desde que sofreu um derrame em 2002.

Alemanha, Espanha, Itália e França pleitearam a extradição de Massera para julgá-lo pela morte de cidadãos seus durante a ditadura (1976-83), mas a Justiça argentina decidiu que ele não tinha condições de saúde para ser julgado novamente.

O almirante Massera foi um dos três integrantes da Junta Militar que assumiu o poder com a deposição da presidente Isabel Perón. Ele também dirigiu a notória Escola de Mecânica da Armada (Esma), onde dissidentes do regime militar foram presos e torturados.




Foi condenado em 1985, logo depois da redemocratização, mas cumpriu apenas cinco anos de pena, pois se beneficiou de uma anistia geral. Em 2007, a Justiça decidiu que a anistia havia sido inconstitucional, e a pena de prisão perpétua foi retomada.

Estima-se que 5.000 presos políticos tenham passado pelos porões da Esma durante a ditadura. Muitos foram torturados, e diversos acabaram sendo colocados em aviões e atirados -- mortos ou sedados -- no rio da Prata.

Era comum também que os oficiais navais roubassem casas, empresas, carros e móveis dos prisioneiros, que eram forçados a falsificar documentos que davam a posse dos bens aos oficiais.

Ao ser condenado em 1985, Massera se recusou a pedir perdão pelas torturas.

"Ninguém tem de se defender por ter vencido uma guerra justa. A guerra contra o terrorismo subversivo foi justa. Não se pode interrogar um terrorista como se estivesse questionando uma criança", alegou ele.




Grupos de direitos humanos dizem que cerca de 30 mil pessoas foram mortas pelo regime militar.


Em 1998, oito anos após ser anistiado, Massera voltou a ser detido pela acusação de ter sequestrado bebês nascidos de presas políticas, um crime que não havia sido abrangido pela anistia.

Com informações de Reuters e Yahoo! notícias