terça-feira, 10 de novembro de 2009

Frei Betto em Cuba

Relato de Frei Betto sobre sua viagem à ilha revolucionária, publicado em ADITAL



Havana, nesta época do ano, é banhada por suave temperatura. O calor é amenizado pelo hálito de frescor que sopra das águas azuladas por trás do Malecón. A umidade reflui, embora a população se mantenha atenta à meteorologia: outubro e novembro são meses de furacões. Ano passado, ceifaram quase 20% do PIB, hoje calculado em US$ 50 bilhões. Não há sinal de que o desastre se repita este ano. Impossível, contudo, prever as reações vingativas de Gaia, cruelmente estuprada por nossa ambição de lucro e solene desprezo à mãe ambiente.
A visita à Cuba, na penúltima semana de outubro, não tinha agenda de trabalho. Fui a convite do querido amigo José Alberto de Camargo que, para comemorar aniversário, escolheu a cidade reencantada pela literatura de Lezama Lima, Alejo Carpentier e Nicolás Guillén.
A comitiva (comitiva do coração) incluiu os jornalistas Chico Pinheiro e Ricardo Kotscho, este acompanhado de Mara, sua mulher. Alojados no octogenário Hotel Nacional, brindamos o desembarque com o daiquiri de La Floridita, onde Hemingway tomava seus porres. Visitamos a casa de praia em que ele morou e escreveu "O velho e o mar", bem como o Hotel Ambos Mundos, no qual viveu seis anos e redigiu "Por quem os sinos dobram".
Foram dias de boa culinária caribenha no El Templete, à beira do porto, e em El Oriente, frequentado por Saramago e García Márquez. Entre mojitos e o aroma perfumado dos charutos Cohiba, cuja fábrica percorremos, mantivemos proveitosas conversas com cidadãos anônimos e autoridades do país, como Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional; Eusébio Leal, historiador da cidade (e responsável pela restauração da área colonial de Havana); Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado (no qual se congregam ministros e dirigentes do país); Armando Hart, do Centro de Estudos Martianos; Abel Prieto, ministro da Cultura; e Caridad Diego, responsável pelo Gabinete de Assuntos Religiosos (que cuida da relação entre Estado e denominações confessionais).
Permaneci um dia a mais para encontrar-me com Raúl Castro, atual presidente, com quem almocei no sábado, 24, e Fidel que, na tarde do mesmo dia, me recebeu em sua casa, com direito a jantar.
Cuba se encontra grávida de si mesma. Após 50 anos de Revolução, é hora de analisar erros e impasses. Mira-se o passado para enxergar melhor o futuro. Em 2010, o 9º Congresso do Partido Comunista deverá submeter o país à verificação de suas contradições e elaboração de novas estratégias, sobretudo no que concerne à economia e à emulação ética.
Engana-se quem supõe Cuba retrocedendo ao capitalismo. Ainda que se multipliquem aberturas à economia de mercado, devido à globalização e o mundo unipolar hegemonizado pelo neoliberalismo, não interessa à Ilha priorizar a acumulação privada da riqueza em detrimento da maioria da população. A América Central é o espelho no qual Cuba não quer se ver: ali os índices de violência são, hoje, os mais altos do mundo, com 23 assassinatos/ano por cada grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, o índice é de 31/100 mil e, em Cuba, 5,8/100 mil. Basta dizer que, no Rio, a polícia matou, em 2007, 1.330 pessoas. No ano anterior, em todo os EUA foram mortas pela polícia 347 pessoas.
Os cubanos são conscientes de as falhas do país não poderem ser todas atribuídas ao criminoso bloqueio imposto, há mais de 40 anos, pela Casa Branca (e, agora, em vias de distensão pela administração Obama).
A manutenção, por longo tempo, de medidas justificadas pela Guerra Fria, começa a ser questionada. É o caso do caráter paternalista do Estado que assegura, a 11 milhões de habitantes, gratuitamente, cesta básica, saúde e educação de qualidade.
Por essa razão, a qualidade de vida em Cuba, onde o analfabetismo está erradicado, figura em 51º lugar, entre 182 países, no Índice de Desenvolvimento Humano 2009, da ONU. O Brasil mereceu a 75ª classificação. Não se cogita alterar o direito universal e gratuito à saúde e à educação. Porém, a redução dos subsídios à alimentação deverá coincidir com o aumento de salários e da produtividade agrícola, de modo a diminuir a importação de 80% dos alimentos consumidos.
Busca-se solução a curto prazo para a duplicidade de moedas: o CUC adquirido pelos turistas (evita o câmbio paralelo e a evasão de divisas) e o peso utilizado pelo cidadão cubano. O turismo, ao lado da exportação de níquel, é das principais fontes de arrecadação de Cuba que, com tamanho 64 vezes inferior ao Brasil, recebe 2,5 milhões de turistas por ano, metade dos que desembarcam em nosso país no mesmo período.
Toda a América Latina se opõe, hoje, ao bloqueio e apoia a reintegração de Cuba nos organismos continentais. A questão política mais relevante nas relações internacionais é a urgente libertação dos cinco cubanos presos nos EUA desde 1998, condenados a penas elevadíssimas, acusados - acreditem! - de evitar atos terroristas. Os cinco lograram abortar 170 atentados planejados contra Cuba dentro da comunidade cubana de Miami.
Fernando Morais, com quem jantamos em Havana, promete lançar, em 2010, livro em que conta a esdrúxula história do processo movido pela Justiça usamericana contra os cinco cubanos.
PS: A quem possa interessar: Fidel goza de muito boa saúde e excelente bom humor.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

PCdoB renova Comitê Central


 Netinho de Paula - Vereador do PCdoB em SP, ainda não faz parte do CC


O 12º Congresso Nacional do PCdoB foi encerrado neste domingo (8), em São Paulo, com a eleição do novo Comitê Central do Partido, que irá dirigir a legenda até o próximo Congresso, em 2013. A nominata de 101 nomes apresentada aos delegados no início do encontro foi acrescida de mais quatro nomes, e aprovada por ampla maioria. Assim, a nova composição do CC aumenta dos atuais 81 membros para 105. Diversos critérios de composição ajudaram a injetar sangue novo na nova direção comunista.
Os critérios de composição do Comitê Central obedeceram aos seguintes obejetivos: manter e se possivel aumentar o número de trabalhadores sindicalistas dado o caráter proletario dos membros do partido; incorporar trabalhadores do campo; agregar mais jovens, sobretudo de 20 a 30 anos, contribuindo para dimnuir a média etária dos membros do Comitê Central; incorporar mais mulheres, adotando a cota mínima de 30%; incluir quadros mais atuantes na luta de idéias, cientistas, artistas, acadêmicos; ampliar, tanto quanto possível, a presença de presidentes estaduais do Partido e, por fim, conferir a integrantes de comissões a autoridade de membro do CC.
Segundo o secretário nacional de Organização do PCdoB, Walter Sorrentino, que coordenou a comissão eleitoral, o critério que amarra todos os demais critérios é o papel a cumprir no contexto coletivo. "Nenhum comitê central é composto por ranking de capacidade, não é este nosso critério, mas sim o da contribuição que cada integrante dará para a construção de uma direção que tem o desafio de preparar o partido para as novas e importantes tarefas que os comunistas têm pela frente", disse Walter ao paresentar a sugestão de nominata.




Renato Rabelo - Presidente do Partido

Participaram da escolha do novo Comitê Central 868 delegados, dos 954 que foram credenciados. A votação aconteceu através de um sistema eletrônico que tornou bastante ágil e descomplicada a eleição. Antes do processo de votação final, foi aberta aos delegados uma consulta para que pudessem indicar outros nomes além dos que constavam da nominata original. Fruto deste processo, foram incluídos na nominata os nomes de Wander Geraldo, Leila Márcia, David Wylkerson e Chico Lopes, que passaram a integrar a lista de 105 nomes eleita pelos delegados. Outros quatro nomes (Dilcea Quintela, Gilmar Tadeu, Ronaldo Carmona e Luis Carlos Paes) faziam parte de uma lista suplementar, mas não alcançaram votos suficientes para ingressar no novo CC. Os 105 membros eleitos obtiveram apla aprovação, obtendo de 100% a 95% dos votos dos delegados. Dos 868 votantes, 650 concordaram integralmente com a proposta apresentada pela comissão eleitoral e 208 delegados fizeram algum tipo de substituição na nominata. Apenas 10 votos (1,15% do total) foram anulados por não cumprirem o critério de incluir pelo menos 30% de mulheres na nominata.


Comissão Política




Logo após a eleição do novo CC, os membros eleitos reuniram-se para definir quem irá compor a Comissão Política do Partido, composta por 26 integrantes, três a mais que a antiga composição. Quanto ao Secretariado, ficou de ser composto mais tarde, em uma reunião da Comissão Política, dia 11, e outra do Comitê Central. A indicação é de um Secretariado de sete membros, visando reforçar cada vez mais o papel da Comissão na condução política do partido.




Também foi decidida a indicação de Renato Rabelo para continuar à frente da presidência do Partido no próximo período. Renato anunciou que aceitava mais um mandato, o terceiro como presidente do PCdoB. Mas pediu a permissão do CC para proceder, no momento oportuno, os preparativos para a escolha de um companheiro que assuma o cargo no próximo Congresso, em 2013.


Foi feita também a proposta de Luciana Santos para vice-presidente do partido. A secretária de Ciência e Tecnologia de Pernambuco e ex-prefeita de Olinda foi anunciada por Renato Rabelo como "futura deputada federal e uma das mais votadas no estado". O nome foi recebido com aplausos pelos 105 membros do CC recém-eleito.


Após a reunião do CC, aconteceu o ato político de encerramento. com o anúncio da nova direção e o pronunciamento final de Renato Rabelo, foi declarado encerrado oficialmente o 12º Congresso Nacional do PCdoB, o maior da história do Partido. Como sempre acontece nos eventos partidários, o encerramento deu-se ao som da Internacional e num clima de grande confraternização que irá marcar o 12º Congresso como um dos encontros mais bem sucedidos do Partido Comunista do Brasil.

Veja AQUI a nominata completa do novo CC, com um breve currículo de cada um

Comunistas russos celebram aniversário da revolução bolchevique

Dezenas de milhares de comunistas, carregando bandeiras vermelhas e retratos de Lenin, se manifestaram neste sábado nas principais cidades da Rússia para celebrar o aniversário da revolução russa de 1917, dia que costumava ser feriado até 2005.
Em Moscou, os comunistas marcharam ao longo da avenida Tverskaia, principal artéria da capital, até a estátua de Karl Marx, em frente ao teatro Bolshoi.
O dirigente do movimento radical Frente de Esquerda, Serguei Udaltsov, e uma dezena de seus camaradas foram detidos por tentar organizar uma manifestação não autorizada.
Em São Petersburgo, berço da revolução comunista, cerca de 1.500 pessoas se manifestaram com cartazes que diziam "Abaixo o capitalismo" e "Reformas do governo, morte da Rússia".


No dia 7 de novembro de 1917 (25 de outubro no calendário vigente na época), os bolcheviques tomaram o poder. Em 1922, fundaram a União Soviética, que se dissolveria 70 anos mais tarde, em 1991.
Em 2005, o então presidente russo Vladimir Putin decidiu acabar com as celebrações oficiais do 7 de novembro e substitui-las pela Jornada da Unidade do Povo, no dia 4 de novembro.
A data comemora a libertação da capital da ocupação polonesa, que terminou conduzindo ao poder a dinastia dos Romanov, que reinou até a revolução de 1917.
Agência France Presse

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os Argumentos Falsos e Desesperados de "O Globo"


No dia de ontem, o jornal O Globo publicou um editorial no qual expressa todo o seu pavor em relação à entrada da Venezuela no Mercosul. Acostumado a jogar com o medo, para hegemonizar ideologicamente o pensamento da classe média branca paulista, desta vez, "O Globo" escolhe como alvo a burguesia nacional.
Peguei o texto do editorial e coloquei meus apontamentos em azul, parágrafo a parágrafo.



Argumento Falso
(Editorial de O Globo - 04/11/2009)

Vitoriosa na Comissão de Relações Exteriores do Senado, a proposta do governo de que a Venezuela de Hugo Chávez seja membro permanente do Mercosul precisa ser discutida com mais profundidade antes de ir ao plenário da Casa. Estava correta a linha adotada pelo relator do assunto na comissão, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).


Correta segundo o entendimento da Globo, "para variar", um tucano.

A sensata recomendação para que os senadores rejeitassem a proposta, por causa do real teor antidemocrático do regime bolivariano chavista, foi, entretanto, rechaçada por 12 votos a cinco, pelo rolo compressor do Planalto movido a alguns argumentos enganosos.

Real teor antidemocrático”???
Nunca aconteceram tantos debates acerca de estado, sociedade e governo na nação venezuelana; em cada bairro de Caracas, vilarejo distante ou chão de fábrica as pessoas discutem sobre temas nacionais, internacionais e também sobre as suas demandas sociais e materiais cotidianas. Os círculos bolivarianos e outras formas de organização popular constituem um rico e efervescente processo de multiplicação do exercício da democracia.

No aspecto político, foi construída a risível interpretação de que é possível separar Estado de governo. Poderia em algum outro lugar do mundo, menos na Venezuela, onde Chávez executa com método um projeto autoritário, vertical, com ele no vértice mais alto.

Poderia em algum outro lugar do mundo”
Aonde? Na Colômbia, onde existe um narco-governo que pretende perpetuar-se no poder?
Projeto autoritário”?
Lembrando novamente, a Venezuela vive a maior fase democrática de toda sua história, isso é fato.
Fora isso , o cidadão Hugo Rafael Chávez Frias, foi colocado na presidência democraticamente, pelo povo venezuelano. Aliás, Chávez chegou ao poder dentro das regras do jogo da democracia liberal burguesa, de caráter representativo. Venceu uma série de eleições e plebiscitos aonde a direita teve todas as condições de organização para disputa.

Não faltam tinturas fascistas na criação de milícias armadas subordinadas ao caudilho.

A doutrina militar venezuelana está compreendendo o papel da guerra assimétrica no combate a exércitos invasores com poderio superior. É pública e notória a hostilidade por parte dos Estados Unidos ao governo venezuelano, é pública e notória a atividade paramilitar dos setores conservadores e entreguistas venezuelanos.
O presidente Chávez não tem interesse em virar um novo Allende, o povo da Venezuela não tem interesse em ser subjugado por um novo Pinochet.
Fascista é a política de Álvaro Uribe, o qual é blindado pela grande mídia, cuja família já teve negócios com El Patrón Pablo Escobar. Governo fascista e entreguista, que alimenta esquadrões da morte que assassinam sindicalistas, camponeses e ativistas democráticos todos os dias. Mas disso, a mídia da Família Marinho não fala, afinal, enxerga, neste modelo de governo, um porto seguro para defesa de seus interesses de classe.
Não é a toa que as organizações globo experimentaram um vertiginoso crescimento durante a ditadura militar brasileira.

Outro argumento, este econômico, é que Chávez no Mercosul abriria ainda mais espaços para o Brasil no mercado venezuelano.

Isso é fato, não é só argumento.

Foi visível o lobby de empresas brasileiras no Senado a favor das intenções palacianas.

As contradições da classe dominante, às vezes, são muito engraçadas, é claro que o capital produtivo brasileiro vislumbrou belas possibilidades para si num país que experimenta crescimento, em todos os sentidos, e que precisa, urgentemente, colocar em funcionamento uma série de políticas de desenvolvimento estrutural. Para desespero da família Marinho, o empresariado brasileiro quer fazer negócios com a Revolução Bolivariana.

Os defensores da proposta oficial citam dados sobre o grande crescimento das exportações brasileiras: de US$ 537 milhões em 1999 passaram para US$ 5,1 bilhões no ano passado, com um superávit robusto de mais de US$ 2 bilhões.

Isso é fato.

Pressupõe-se que a entrada da Venezuela no Mercosul é condição necessária para que as exportações brasileiras continuem a crescer. Falso argumento, pois as vendas brasileiras para a Venezuela cresceram por se beneficiar de um acordo de livre comércio assinado pelo Mercosul com aquele país - e nada impede que continuem a se expandir.

Agora este editorial se superou; dentro de uma falácia doentia e burra, tenta-se revisar a lógica da diplomacia e da estratégia política internacional.
Afinal, o que eles querem dizer?
Que as exportações brasileiras vão encolher com a entrada venezuelana no bloco?
Que as exportações brasileiras à Venezuela vão crescer mais com a república bolivariana fora do Mercosul do que dentro?
Será que o diário da família Marinho, em sua sanha, não denota algum tipo de “desespero de elite de nação subdesenvolvida” em relação a decisões políticas que podem desembocar num modelo de desenvolvimento endógeno de um grande bloco latino-americano?

Outra coisa é permitir que Chávez participe, com poder de veto, da união aduaneira do Mercosul, em que todos os participantes precisam praticar uma tarifa externa comum (TEC) e só podem fechar acordos comerciais em bloco. Se Chávez desejar, o Mercosul não fechará um sequer desses acordos, vitais para o Brasil.
Empresários que hoje trabalham para facilitar a entrada da Venezuela no mercado comum deverão se arrepender - caso tenham êxito - , quando, por exemplo, a longa negociação que o Mercosul empreende com a União Europeia, estratégica para quem deseja aumentar a participação no comércio mundial, for suspensa de vez por um veto bolivariano. 

E eis que o editorial de O Globo encerra-se com um pacote repleto de ameaças.
É interessante notar que as ameaças, desta vez, dirigem-se menos à classe média branca urbana e muito mais à burguesia nacional, sobretudo ao capital produtivo, que quer ir à Venezuela construir portos, estradas, pontes, indústrias etc.
Será que o “desespero de elite de nação subdesenvolvida” denotada pelas organizações Globo não estão refletindo(mais do sua contrariedade a um mercado comum latino-americano) o medo de que o espectro bolivariano, que ronda o continente, chegue com força em terras brasileiras?

Homenagem a Santo Dias da Silva

Há 30 anos era assassinado o operário Santo Dias da Silva. Sua história de vida e de morte representa a de muitos outros que ousaram lutar pela igualdade, justiça e liberdade em nosso país. Operário metalúrgico, líder sindical, militante do movimento popular, Santo Dias nasceu em 22 de fevereiro de 1942, na fazenda Paraíso, município de Terra Roxa, São Paulo. Desde ali começou sua luta. Expulso com sua família da colônia em que moravam, foi para a capital onde, como operário metalúrgico, logo se juntou às lutas de suas categoria.
Mas a situação de Santo não se ateve ao movimento operário. Militante de uma ala esquerda da Igreja Católica, era membro ativo das CEBs e dos movimentos de bairro que surgiram da ação desses grupos: lutas por transportes, escolas, melhorias na vilas de trabalhadores. Ao lado de sua companheira, Ana Maria do Carmo, liderança expressiva entre os clubes de mães, participou das coordenações do Movimento de Custo de Vida, entre 1973 e 1978. Envolveu-se, também, nas lutas dos trabalhadores rurais e do Comitê Brasileiro pela Anistia.
No ano de 1978, uma onda de greves em todo o ABC paulista e logo englobando os metalúrgicos da capital marcou forte ascensão do movimento operário. As greves impulsionaram a formações de comissões de fábrica e fortaleceram a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo. Santo Dias participou da chapa de Oposição que concorreu às eleições do sindicato em 1978.
Em agosto de 1979, depois de vários anos de intensa movimentação popular exigindo anistia aos presos políticos exilados, o governo edita a Lei de Anistia. Mas a luta por democracia , por justiça, contra a exploração não termina.
Na grande greve dos metalúrgicos de 1979, a Oposição dirige efetivamente a greve sem estar formalmente na direção do sindicato. Santo Dias é uma de suas lideranças. Os trabalhadores se organizavam por regiões da cidade, enfrentando forte repressão policial e dezeanas de prisões. No dia 30 de outubro, como parte do comando de greve, Santo Dias vai para um piquete na frente da fábrica Sylvânia onde, por ações violenta e brutal da polícia militar, é covardemente assassinado pelas costas.
Homenagem
Muitas emoções e lembranças marcaram a noite da terça-feira (27/10) na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. As mais de 100 pessoas presentes ao Auditório Franco Montoro puderam relembrar a história da militância de Santo Dias e prestar sua homenagem ao sindicalista.
O evento teve seu início às 19h, com uma apresentação musical, cujo tema das canções era a vida e a morte de Santo Dias. O MST e mais 19 entidades de movimentos sociais prestigiaram a solenidade que, além de lembrar os 30 anos da morte de Santo, tinha como objetivo homenagear importantes personalidades que dedicaram suas vidas à defesa dos direitos humanos e pela democratização do país. O MST também foi um dos homenageados.
(Com informações do CSDDH e da CUT)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Juanita Castro , CIA e Itamaraty

Assim que veio à luz pública a revelação de Juanita Castro, irmã de Fidel, de que havia operado para a CIA desde antes de sair de Cuba, ajudada pela esposa do embaixador brasileiro em Havana, este Blog levantou algumas questões; o diplomata Leitão da Cunha, saiu da Ilha caribenha para servir na URSS, e com o golpe de 64, integrou o governo e participou das primeiras decisões em direção ao recrudescimento do regime.
Qual foi a ligação mantida por este personagem com a CIA durante sua atuação?


Interessantíssima e elucidativa a postagem de Argemiro Ferreira em seu Blog acerca do caso.


Abaixo, o conteúdo na íntegra:


Há uma particularidade insólita sobre nosso ministério das Relações Exteriores, o velho Itamaraty. Sempre desfrutou de boa imagem, menos por merecê-la do que pela prática nefasta, talvez de muitos anos, de varrer a sujeira para debaixo do tapete. Atravessou, por exemplo, todo o período da ditadura militar como se vivéssemos no melhor dos mundos, enquanto perseguia diplomatas - intelectuais como Antonio Houaiss, Vinícius de Morais, João Cabral de Melo Neto entre muitos. E prestou-se a papéis indignos mesmo antes do golpe de 1964.


Vale a pena lembrar tais coisas embora neste momento o Itamaraty, com o ministro Celso Amorim à frente, conduza com sucesso uma política externa exemplar. O que sugere revisitar a questão é a iniciativa de uma cubana de Miami, 76 anos de idade, notória pelo detalhe de ser irmã de Fidel e Raul Castro, de revelar num prolixo livro de memórias (Fidel y Raúl, Mis Hermanos – La Historia Secreta, 432 páginas), ter sido agente da CIA, central de espionagem dos EUA, graças à diplomacia brasileira.


Juanita Castro não fez a revelação nesses termos, mas o que escreveu (ou o que escreveu para ela a co-autora mexicana Maria Antonieta Collins, especialista em livros de auto-ajuda que ensinam dietas, receitas, como lidar com ex-maridos, livrar-se do vício do cartão de crédito, etc) permite chegar a tal conclusão. Sem atribuir explicitiamente a carreira de espiã à nossa diplomacia, ela diz ter sido recrutada para a atividade pouco nobre através da mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha, que então servia em Havana.


O péssimo exemplo da embaixatriz
É conveniente esclarecer que, entre outras coisas, agora Juanita se diz traída duas vezes - uma pelo irmão Fidel, a outra pela CIA e os EUA. No primeiro caso, a gente entende: como governante Fidel optou por cuidar dos problemas do país, não dos interesses da família. Quanto ao país que a recebeu, queixou-se de que a CIA no governo do presidente Nixon, eleito em 1968, pediu a ela para mudar o discurso e sustar os ataques a Cuba e Fidel - ou seja, dizer o contrário do que dizia até então.


Mas voltemos à diplomacia. Como chefe da missão do Brasil, o embaixador Leitão da Cunha recebera Juanita como asilada em 1958, ainda no governo JK. Ela alegara correr risco por ser irmã de Fidel, então líder dos guerrilheiros que lutavam contra o ditador Fulgencio Batista. Vitoriosa a revolução no primeiro dia de 1959, ela deixou a embaixada. E em 1961, depois do fracasso (em abril) da invasão da CIA (na baía dos Porcos) a embaixatriz Virginia Leitão, ciente da atividade dela contra o governo revolucionário do irmão, chamou-a para uma conversa. E sugeriu que passasse a colaborar “com uns amigos que conhecem seu trabalho (contra o governo) e querem ajudá-la”.


De acordo com a versão, Virginia encarregou-se de promover o encontro de Juanita com um dos “amigos”, Tony Sforza, então usando o codinome “Enrique”, depois de ter atuado um tempo sob o disfarce de jogador e frequentador de cassinos, com o codinome “Frank Stevens”. Logo depois Juanita passava a operar como agente da CIA em território cubano, com o codinome “Donna”. A se acreditar no livro, durante quase três anos (até 1964, quando foi para os EUA), ela “protegia”, inclusive escondendo em sua casa, críticos e opositores da revolução.


As relações promíscuas de diplomatas
Daí em diante Juanita foi usada permanentemente pela CIA como arma de propaganda. A ligação dela com a espionagem americana não era segredo. Já em 1975, no seu livro Inside the Company - CIA Diary, o ex-espião Philip Agee, citou-a como “agente de propaganda da CIA”. E num livro póstumo de 2005, Spymaster - My Life in the CIA, o célebre Ted Schackley, controvertido ex-chefe de operações da agência, revelou publicamente, pela primeira vez, que o contato da CIA com Juanita Castro tinha sido feito através da embaixatriz brasileira Virginia Leitão da Cunha.


Difícil é entender porque o fato ainda era ocultado no Brasil e porque não se tenta saber mais sobre as relações promíscuas de diplomatas e gente direta ou indiretamente ligada ao Itamaraty, dentro e fora do país? O mesmo livro que fizera (em 1975) a primeira referência à relação de Juanita com a CIA também registrara que no Uruguai, na década de 1960, o embaixador brasileiro Manuel Pio Corrêa atuara como espião da CIA.


Mas só em julho de 2007, graças a série de reportagens do Correio Braziliense durante quatro dias seguidos, o país soube a extensão do papel de Corrêa. Depois de passar pelo Uruguai e pela Argentina ele foi premiado com a secretaria geral do Itamaraty e usou o cargo - e os superpoderes recebidos no governo Castello Branco - para criar insólita máquina de espionagem no ministério, com alcance mundial. Um certo Centro de Informações do Exterior (CIEX) dedicava-se a monitorar em toda parte, com a ajuda de nossos diplomatas, os exilados brasileiros e críticos do regime militar.


D. Hélder e a espionagem de Pio Corrêa
Por alguma razão desconhecida a grande mídia do resto do país, cúmplice do golpe de 1964 e beneficiária da ditadura durante 20 anos, preferiu praticamente ignorar o conteúdo daquelas reportagens. Mas um dos efeitos conspícuos da ação do CIEX pode ter sido a campanha mundial orquestrada pela diplomacia brasileira para impedir a concessão do prêmio Nobel da Paz ao arcebispo Hélder Câmara, que denunciava torturas e abusos contra os direitos humanos no Brasil. A maquinação torpe devia ser hoje motivo de estudo e repúdio na formação dos futuros diplomatas.


Mas os segredos do Itamaraty, ao contrário, parecem intocáveis. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi, o próprio Pio Corrêa, ao negar perseguição a Vinícius de Moraes (que se desligou, alega ele, num acordo amistoso) vangloriou-se de ter demitido “pederastas”, “vagabundos” e “bêbados”. Houaiss e João Cabral já eram perseguidos antes da ditadura, como alvos de campanha macarthista liderada, ainda no início da guerra fria, pela Tribuna da Imprensa ao tempo de Carlos Lacerda, que os denunciava como subversivos em manchetes de primeira página.


Seria no mínimo saudável arejar esse passado recente e não perpetuar o sigilo. O Itamaraty foi suspeito antes de ocultar seus erros e ainda os gastos elevados, como se fosse uma caixa preta. O fato de alguém como Virginia Leitão da Cunha - cujo marido ocupou altos cargos, foi até ministro do Exterior da ditadura - ter atuado como espiã a serviço de potência estrangeira, dentro da embaixada brasileira, e recrutado agente para serviço de espionagem de outro país, é vergonha que tem de ser exposta à execração pública, para o exemplo nunca ser seguido. E se deixar de ser feita coisa parecida em relação aos Pio Corrêa da vida, a impunidade funcionará como estímulo no futuro ao mesmo comportamento deprimente - que revela subserviência e rebaixa a qualidade de nossa diplomacia.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Camilo acompanha o Che na Praça da Revolução


A escultura de Camilo Cienfuegos acompanha, desde 27 de outubro, a do Che Guevara na histórica Praça da Revolução José Martí, em Havana, quando se completam 50 anos de seu desaparecimento físico, em 28 de outubro de 1959.
No fundo do prédio do Ministério de Informática e Comunicações encontra-se a escultura do artista plástico Enrique Ávila, também autor da obra escultórica do Guerrilheiro Heróico, situada na edificação contígua.
Lê-se no extremo inferior direito a inscrição: "Fidel, vai bem", em alusão à resposta dada pelo Herói de Yaguajay, Camilo Cienfuegos, ao líder histórico da Revolução, Fidel Castro, em 8 de janeiro de 1959, quando, no ato onde declarou que o quartel de Columbia seria transformado numa escola, lhe perguntou: Camilo, eu vou bem?".

A pedido da máxima direção do país, uma dezena de empresas executou esta obra, que abrange a homenagem do povo todo ao Senhor da Vanguarda, como Camilo é conhecido.

Consegui a maior semelhança entre as duas peças escultóricas foi premissa desde a conceição do projeto, para o qual foi construída uma parede que imita o acabamento da fachada, onde se encontra a imagem do Che, no prédio do Ministério do Interior.

Enrique Gandulfo, chefe técnico da obra, explicou que, para comunicar o fundo da escultura com o imóvel, foi preciso armar uma estrutura de ferro, enquanto os alicerces precisaram de 129 metros cúbicos de betão, com o fim de sustentar mais de 100 toneladas de peso da obra.

A montagem da estrutura de ferro, de mais de mil elementos e completamente fixada com parafusos, iniciou-se em 4 de outubro último.

Camilo Cienfuegos desapareceu fisicamente quando vinha num teco-teco proveniente da província de Camagüey, depois de cumprido uma missão relacionada com a tentativa contrarrevolucionária do traidor Hubert Matos.

Atualização da postagem (08/02/2009): Fragmento de discurso de Camilo às massas no Palácio tomado pelos revolucionários (que agora abriga o Museu da Revolução, em Havana).

Ouça Cienfuegos AQUI

domingo, 1 de novembro de 2009

Nota da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) sobre a invasão de sua sede pela polícia

Publicamos aqui nota da Federação Anarquista Gaúcha (FAG) sobre o acontecimento da última 5ª feira, 29 de outubro:


A polícia civil invadiu a sede da entidade e levou computador, material de propaganda e outros objetos relacionados à militância.


Mais uma atitude criminosa da gestão tucano-facista de Yeda Crusius.
Este Blog se solidariza com os militantes da FAG, que estão do mesmo lado que tantas outras frentes de luta sociais que realizam este heróico embate contra o governo neoliberal e truculento do Rio Grande do Sul.




Segue a Nota:


A Federação Anarquista Gaúcha (FAG) agradece fraternalmente a solidariedade que está sendo manifestada e reafirma seus princípios frente ao ocorrido no dia 29 de Outubro, em Porto Alegre. Homens e mulheres livres, dotados de ideais e certos do direito que tem de expressá-los política e socialmente seguem íntegros.
Na tarde do dia 29 de Outubro foi deflagrada a execução pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul de dois mandados judiciais (Justiça Estadual) de busca e apreensão na sua sede pública em Porto Alegre e no endereço de hospedagem do site vermelhoenegro.org na cidade de Gravataí. Em tais ordens constava o recolhimento de material impresso de propaganda, computador (CPU) e demais objetos relacionados à queixa criminal. Os agentes do Estado inicialmente tentaram arrombar o portão conforme testemunho de vizinhos do local, já que a sede estava fechada naquele momento. Após a entrada no local, mediante a leitura do mandado, iniciaram a busca no interior do imóvel por cartazes, boletins informativos e demais documentos ao mesmo tempo em que desligaram o telefone, alegando que durante aquela execução não se pode usar tal meio. O agravante é que além do cartaz requerido pela ordem judicial, no qual a governadora é responsabilizada junto à Brigada Militar (polícia militar estadual) pelo assassinato de Eltom Brum da Silva, levaram o estoque de arquivo de outras produções impressas de opinião política e informação, como um arquivo de cartazes reivindicando a saída da governadora e denunciando a ingerência do Banco Mundial no seu projeto político. Este material é parte da campanha pública deflagrada pela FAG dentro do contexto de uma ampla campanha de mobilização sindical e popular que vem se desenvolvendo há pelo menos um ano neste estado.
Sábado 31 de outubro de 2009, Porto Alegre – RS, Brasil