sábado, 21 de maio de 2011

Foro de São Paulo é vitória da esquerda na América Latina

Valter Pomar, um historiador brasileiro que ocupa a Secretaria de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) faz um paralelo entre o que está acontecendo com a esquerda européia e a latino-americana.
“Enquanto no velho continente, a esquerda está em descenso, por aqui está em acenso. Isto significa que o papel dos movimentos sociais, os partidos de esquerda, os parlamentares, permitiram que acumulássemos força e chegássemos até o final dos anos 90 e no começo dessa década com um grupo de governos progressistas como nunca tivemos em nossa história da América Latina".

Apesar da experiência do Foro de São Paulo ter sido exitosa desde que o Partido dos Trabalhadores do Brasil impulsionou sua fundação nos anos 1990, “não podemos ficar tranquilos porque a direita está retomando o contra-ataque”.

“Os governos devem ser instrumentos de transformação profunda de nossas sociedades e há muito que fazer na perspectiva nacional da integração”, afirma Pomar que esteve em Bogotá entre 25 e 27 de novembro participando da celebração do 5º aniversário do Pólo Democrático Alternativo (PDA), ocasião em que presidiu a mesa de trabalho do Foro de São Paulo nessa cidade.

O Pólo, um aliado fundamental para a esquerda latino-americana

Ao expressar sua felicitação ao PDA pelos seus cinco anos de luta política na Colômbia, o porta-voz do Foro de São Paulo disse que o trabalho desse partido é importante e fundamental para a América Latina, porque contribui para consolidar a ação da esquerda na região.

Afirmou que não se pode deixar intimidar com as ameaças da direita sobre os setores democráticos e progressistas como o Pólo, pois essa estratégia sistemática é utilizada por parte do adversário para debilitar e aniquilar. No caso do Brasil com o Partido dos Trabalhadores, com muita frequencia a direita disse que estava acabado, aniquilado, mas o certo é que nas eleições presidenciais de outubro voltou a ganhar à presidência com Dilma Rousseff.

Como qualquer partido político que se respeite, “no PT também temos cisões e apesar disso, continuamos crescendo em grande medida porque nosso imperativo é a unidade e porque além disso existe uma grande pressão das bases”.

Pomar afirmou que a esquerda latino-americana tem um aliado fundamental no Pólo para contra-atacar as intenções obscuras do bloco da direita que opera contra a integração latino-americana e os direitos dos povos, mais ainda quando os Estados Unidos tem a Colômbia como sua ponta de lança para consolidar sua posição hegemônica.

Sobre os “latifúndios midiáticos” na América Latina, diz que esquerda latino-americana “é criticada mais por seus acertos do que por seus erros”.

Estados Unidos e sua decadência de longa duração

Sobre o enfraquecimento da hegemonia dos Estados Unidos afirmou que “é um processo de decadência de longa duração que ainda irá causar muitos estragos. Porque não aceitarão caírem sem manter sua presença, sua força e irão fazer de tudo para reverter esse processo. Isto significa que precisam recuperar o controle sobre o que consideram o seu “quintal”. Por isso é que não houve nenhuma alteração real da política de Obama em relação à Bush para a América Latina. Entretanto, encontram muita dificuldade, porque estão enfrentando uma correlação de forças muito diferente da que existia trinta anos atrás com uma capacidade econômica debilitada e com a liderança do Brasil como força econômica e política."

“O Estados Unidos no fundo o que aspira é que o Brasil seja um sócio menor para se manter no controle da região. Mas o Brasil não aceita essa subordinação, porque o que deseja é a integração da América Latina”.

Os desafios do governo de Dilma Rousseff

O Observatório Sociopolítico Latino-Americano – www.cronicon.net– conversou com Pomar sobre os desafios do PT com o novo governo do Brasil que a partir de 01 de janeiro de 2011 terá no poder a economista Dilma Rousseff.

Observatório Sociopolítico Latino-Americano : O que significa para o Partido dos Trabalhadores (PT) depois de oito anos de mandato de Lula da Silva, um novo governo sob a liderança de Dilma Rousseff?
Valter Pomar: Significa um reconhecimento da maioria dos brasileiros no sentido de que o PT realizou um governo exitoso no que se refere a democracia, a mudança de melhoria na vida do povo. Por outro lado, a vitória de Dilma Rousseff significa um desafio porque quando tomar posse do governo no próximo dia 01 de janeiro enfrentará uma realidade internacional diferente da que Lula em seus oito anos. Não será um governo de continuidade porque para que seja melhor terá que ser diferente.

Observatório: O desafio do PT é agora o de institucionalizar-se mais e deixar de ser “lulista”. O fenômeno de Lula da Silva não é caudilhista?
Pomar: Isto tem algo de verdade e algo de mentira. Lula é produto do PT e chegou à presidência graças a este partido. O lulismo surge a partir do momento em que camadas populares que antes não viam o PT com simpatia passam a apoiá-lo e votam nele. O fenômeno então não é como em outros países em que aparece um caudilho que cria um partido. No caso de Lula, existe um partido que projeta um personagem e que após 22 anos de luta chega ao governo e ganha autoridade porque consegue amplo apoio em sua gestão.

O desafio que temos é que esses setores que apóiam Lula passem a respaldar o PT. A direita dizia que no Brasil o PT tinha apenas a opção de eleger Lula e agora ganhamos a eleição presidencial com outra pessoa, o que mostra que nosso partido tem identidade e força própria.

Observatório: Um sociólogo brasileiro , Ricardo Antunes, disse faz pouco tempo em Bogotá que o governo de Dilma Rousseff em continuidade com o de Lula da Silva, entre outras coisas, continuará mantendo algumas políticas neoliberais que o PT nesses oitos anos não mudou e preferiu continuar com a herança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Qual é a sua opinião?
Pomar: Não estou de acordo com essa percepção de Antunes. Faz alguns meses participei de um debate com o grupo de Antunes e lhes fiz uma pergunta muito simples: me diga uma coisa: a vida do povo brasileiro melhorou ou piorou? Hoje temos mais ou menos neoliberalismo no Brasil? E eles ficaram quietos porque sabem que a vida do povo melhorou e hoje temos menos neoliberalismo.

Eles podem acusar o governo de Lula ou o PT de adotar uma estratégia lenta e gradual que faz muitas concessões, mas falarmos de neoliberalismo é uma besteira, porque se fosse assim, o Brasil seria mais neoliberal que há oito anos e acontece exatamente o contrário. Tanto é assim que quando aconteceu a crise internacional de 2009 nós fomos quem menos sofremos.

Se fossemos um governo neoliberal estaríamos quebrados. Então não é que não existam políticas neoliberais porque toda a America Latina ainda está sob a hegemonia neoliberal ou que não exista continuidade em alguns aspectos, mas fazer uma generalização como a faz Antunes e outros intelectuais é se desligar da realidade concreta.

Observatório: O governo Lula da Silva tem dito que aposta na integração latino-americana, entretanto, alguns países da região acusam o Brasil de estar pondo freio na concretização do Banco do Sul…
Pomar: O projeto do Banco do Sul será concretizado, o que existe é uma diferença entre os governos progressistas que fazem parte da UNASUL sobre a natureza dos mecanismos de integração. Nós avaliamos que uma instituição como o Banco do Sul deve ter sustentabilidade e por isso não pode ser constituído de maneira rápida. Como será o aporte de capital? Como será a votação? Será por aporte de cada país?

Se trata de construir um mecanismo que evite o que acontece com o Banco Mundial, cuja muitas decisões não se adotam através do mecanismo de um país,um voto. Por tudo isso existe uma discussão que tem que acontecer para se criar uma instituição que funcione e que no curto prazo não entre em crise.

Fonte: Vermelho

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Amazônia: qual o código da nossa esquerda?

Gado ao invés de floresta...Desenvolvimento?




Será o Código Florestal a prova dos nove para o habitual transformismo que, vez por outra, visita forças do campo progressista? É hora de a esquerda se livrar do imaginário herdado do padrão fordista e incorporar a luta pela preservação natural ao seu horizonte político.

Gilson Caroni Filho

Equilíbrio ambiental e desenvolvimento sustentável são elementos indispensáveis para o futuro do país. Exigem do movimento ecológico uma reformulação radical que o torne matriz de uma nova esquerda. A Amazônia é um exemplo. Seu desmatamento é obra conjunta de latifundiários, grandes empresários e empresas mineradoras.

São os inimigos a serem confrontados prontamente. Será o Código Florestal a prova dos nove para o habitual transformismo que, vez por outra, visita forças do campo progressista? Ou talvez a inflexão de fundo seja de maior envergadura. É hora de a própria esquerda se livrar do imaginário herdado do padrão fordista e incorporar a luta pela preservação natural ao seu horizonte político. Fora disso, a palavra progressista torna-se um vocábulo vazio. Um atributo discutível para quem luta no campo democrático-popular. O ciclo da destruição das nossas florestas é sobejamente conhecido

Desde a década de 1960, a grilagem vem sendo ampliada por intervenções como o estímulo à mineração e à expansão da pecuária e da lavoura monoculturista, a abertura ou o asfaltamento de estradas e outros projetos ditos de “povoamento” e, como agora, no caso de projetos de hidrelétricas do Rio Madeira, “desenvolvimento”. E isso desde o simples anúncio, quando tais iniciativas ainda estão no papel.

Todos nós já vimos tramas semelhantes em filmes de faroeste, em que os robber barons tratam de se apossar, por quaisquer meios, das terras por onde vai passar a ferrovia ou ser feita a represa.

Uma vez estabelecida a ocupação, tem início a retirada da madeira de maior valor comercial, destinada às carvoarias e às indústrias moveleira e de construção civil, etapa que pode levar várias estações de corte. Exauridos tais recursos, segue-se a “limpeza” da área, por meio de corte raso e queimada, e o preparo da terra para pastagem.

Quando a extração de madeira se esgota, entra o gado, tipicamente de corte. Em algum momento, a posse é esquentada por títulos falsificados de propriedade que, exatamente por serem falsos, e porque os registros e fiscalização são precários, geralmente não aparecem nas estatísticas oficiais, em que as áreas griladas continuam figurando como terras da União.

Ironicamente, essas “propriedades” serão usadas como garantia para a obtenção de empréstimos e financiamentos junto a bancos, tanto privados como oficiais, e a agências de fomento.

A substituição do gado pela soja ou por outras lavouras extensivas é determinada, mais que por qualquer outro fator, pela demanda por essas commodities e por seus preços relativos nos mercados internacionais, sobre os quais o Brasil não tem qualquer controle: são buyer markets, mercados de compradores. No caso da soja, vale lembrar que há sinergia com a pecuária, já que parte significativa da colheita vai para a produção de farelo empregado em rações animais.

Além disso, o ciclo se expande continuamente. Pois, enquanto a lavoura está entrando numa área, os grileiros e as motosserras estão abrindo novas “frentes de ocupação” em outra, para a qual o gado por sua vez se expandirá ou mesmo deslocará, pois é muito mais fácil deslocar reses do que vegetais.

Se deixada ao sabor do mercado, a floresta de ontem se converte no polo madeireiro de hoje, no pasto de amanhã, na lavoura extensiva de depois de amanhã e, em última instância, em deserto.

O solo característico da Floresta Amazônica, embora rico em elementos não orgânicos como ferro e alumínio, é extremamente pobre em nutrientes, e por si só jamais seria capaz de sustentar florestas. E, no entanto, a floresta está lá. Como? O que sustenta a floresta em pé é a própria floresta.

A decomposição dos detritos vegetais e animais depositados pela própria floresta sobre seu solo forma a “terra preta de índio”, um fino tapete rico em húmus, e são os microorganismos aí presentes que produzem os nutrientes de que as árvores se alimentam.

Quando a cobertura florestal é removida, o ciclo se rompe. Pois a camada de “terra preta” é superficial e, sem a floresta para de um lado renovar os componentes orgânicos e de outro segurá-los, é rapidamente degradada. Até mesmo pela chuva, que nessas condições, sem a floresta para proteger o solo do impacto direto, carrega a terra para as barrancas dos rios acelerando a erosão.

Uma vez derrubada, portanto, a floresta não se recompõe. Disso sabe, ou deveria saber, o deputado Aldo Rebelo. O campo progressista não comporta alianças com forças antagônicas à sua história de combatividade, coerência e superação. Estamos vivendo um debate decisivo para a agenda que a esquerda pretende propor. O fio da navalha onde tudo perde a cor, e dificilmente se refaz, reaparece no cenário político. Como nas florestas degradadas.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Figueroa fala sobre Allende



"Eu conheci o Allende. No terremoto de 1971, estava no Peñarol e armei uma seleção uruguaia para enfrentar uma seleção chilena num jogo beneficente para as vítimas do terremoto. Consegui passagens aéreas, os jogadores foram grátis para Santiago e lotamos o Estádio Nacional [usado pelos militares anos depois como centro de detenção e tortura]. Todo o dinheiro que arrecadamos, entreguei ao Allende: "Presidente, isso é para os afetados pelo terremoto". O Allende foi uma grande pessoa, muito boa gente, muito humano."
Original da entrevista aqui.

sábado, 7 de maio de 2011

O ódio da direita peruana contra Ollanta Humala



A desfaçatez da direita peruana

Os peruanos veem nos grandes meios como os políticos de direita e seus publicitários perderam todo tipo de decência, mostrando sua incapacidade de aceitar o outro, o diferente como ganhador.

Logo após o triunfo eleitoral, em 10 de abril, de Ollanta Humala, candidato da coligação Gana Peru, a imprensa oligárquica de Lima começou a alardear em suas colunas muito ressentimento e ódio contra o povo peruano, chamando-o de ignorante, tonto e anti-moderno, por ter votado no candidato nacionalista que é apoiado por importantes movimentos sociais e políticos da esquerda peruana.
O fato de que cerca de cinco milhões de peruanos votaram em Ollanta Humala ao invés de apoiar os candidatos de direita, apadrinhados todos por Alan García (que violou reiteradamente o artigo 346 da Lei Orgânica de Eleições, que proíbe a toda autoridade política ou pública praticar atos que favoreçam ou prejudiquem um partido ou candidato) levou a que outra vez os peruanos vejam nos grandes meios como os políticos de direita e seus publicitários perderam todo tipo de decência, mostrando sua incapacidade de aceitar o outro, o diferente como ganhador.
Uma forma de descaracterizar o adversário é usar adjetivos infundados contra ele. Assim, a direita sustenta que Ollanta Humala é um demônio político para os peruanos, uma espécie de lobo em pele de cordeiro que pretende devorar a chapeuzinho-vermelho (o Peru). Não cessaram em atacá-lo, relacionando-o com outros cenários e personagens dentro e fora do país. Internamente, por ter em sua lista ao Congresso parlamentares de esquerda de longa data, de luta a favor dos recursos naturais, pelo respeito aos direitos humanos e pela defesa da soberania do país. No afã de desaprovar Humala, a direita não titubeou em dizer – sem nenhuma prova – que estávamos inclusive diante de um defensor de Abimael Guzmán.
Externamente, se esforçaram para relacioná-lo com os presidentes de Venezuela, Nicarágua, Bolívia e Equador; fizeram com que aparecesse fotografado ao lado de Hugo Chávez, com as grandes manchetes indicando que ele quer mudar a Constituição para se reeleger (ainda não é presidente, mas a direita já fala em reeleição), que vai estatizar a economia, que vai controlar o Congresso (coisa que o fujimorismo fez, sim, durante dez anos), que vai proibir a liberdade de expressão e que um governo nacionalista traria corrupção (característica essa do atual regime de Alan García) etc.
Mas os resultados do último dia 10 de abril indicam que esse povo peruano – humilde, simples, trabalhador, explorado, empobrecido – está pronto, não tem medo, não acredita em calúnias nem em fantasmas. É um povo que quer uma mudança e que sabe, por experiência própria, que se nestes últimos anos a economia peruana cresceu, isto não os beneficiou; o crescimento econômico foi próspero para os ricos, mas três quartos da população seguem sendo pobre, carecendo de direitos humanos elementares.
O outrora antiimperialista Alan García Pérez, hoje deve ter vergonha de se declarar discípulo de Haya de la Torre; a conciliação barata com o colosso do norte não foi uma característica do fundador do aprismo. No período recente do governo de García, este se converteu em uma das marionetes preferidas de Washington; sua função consistiu em abrir o país ao capital estrangeiro. García e seus capangas da direita peruana acreditaram que o êxito econômico (para os ricos) traria um mandato a mais com um triunfo eleitoral que achavam seguro com algum dos candidatos da direita, mas a sensatez do povo peruano pode mais e com total confiança, no último 10 de abril disse chega e votou por uma mudança no Peru. Os medos, calúnias e fantasmas criados pela direita peruana (os mesmos que se repetem na América Latina contra qualquer candidato anti-sistema), não puderam fazer frente contra a vontade e a sabedoria do povo.
No dia 5 de junho acontecerá a votação do segundo turno presidencial no Peru. A direita não aprendeu a lição, ao invés de repensar os resultados eleitorais do primeiro turno e compreender as mudanças que a maioria dos peruanos exige, se mostra outra vez teimosa e tola, caluniando o candidato da coligação Gana Peru e apostando no fujimorismo, que é sinônimo de corrupção, crimes, impunidade e violação dos direitos humanos.

Fonte: Forum