quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Honduras e o futuro das Américas - Por Luís Carlos Lopes


O caso de Honduras traz a memória de tantos golpes de Estado e de governos ditatoriais, comuns na América Latina, entre as décadas de 1960 e 1980. A América Central, onde fica este pequeno país, foi afogada em sangue, miséria e ignorância, a partir de episódios similares. Nenhuma ditadura trouxe a paz e a conciliação, baseada em algum nível de justiça social. Nesta região, elas geraram incruentas guerras civis revolucionárias, respondidas a política de terror de Estado, baseadas no controle da opinião, na tortura e em execuções sumárias. A ordem e a normalidade constitucional pretensamente pretendida pelos ditadores, sempre significaram um poço sem fundo, um mundo sem solução.

O modelo costa-riquenho – o coração civil das Américas – foi desdenhado pelos verdadeiros sujeitos articuladores destes tipos de governo. O esquema é simples. As elites agro-exportadoras, os proprietários das terras e dos negócios, aliavam-se às incipientes burguesias locais e às frágeis classes médias. Iam ao poder garantindo pela força militar seus negócios e privilégios. Oprimiam a maioria, sem qualquer cerimônia, tal como no passado colonial espanhol.

As forças armadas funcionavam como instrumentos de políticas das mesmas elites, fundindo-se, tais como partidos políticos, às frentes da reação e do controle da população. Perdiam qualquer finalidade de defesa do país e se transformavam em gendarmes de controle da população. Aceitavam um papel subalterno e, dizendo-se patrióticas, defendiam de fato os patrões internos e externos. Os militares transformavam-se em grandes polícias fardadas especializadas em tentar conter qualquer tentativa de melhoria social ou de democratização, mesmo que formal.

Durante muito tempo, esta solução de força contou com o apoio norte-americano que, em algumas oportunidades, chegou a intervir militarmente na região. Os poderosos interesses econômicos e políticos-estratégicos norte-americanos, mormente depois do sucesso da revolução cubana, mas mesmo antes, fundamentaram um apoio irrestrito à opressão centro-americana.

Questões étnicas e culturais ajudaram a completar o quadro dantesco de uma região tributária das maravilhosas e antigas culturas indígenas americanas, sobretudo, da civilização maia. Ainda hoje, no caso hondurenho, vê-se que Zelaya é um mestiço de brancos com índios e Micheletti, pelo nome, figura e arrogância, é um membro das elites brancas originário de imigrações mais recentes. As imagens das ruas de Tegucigalpa mostram a real identidade étnica do país que deveria ser motivo de orgulho e não do desprezo conhecido que as elites brancas lhe devotam.

Em Honduras, um passado que parecia superado voltou com força total. O pesadelo retornou, como um filme de terror de péssimo gosto. As técnicas são as mesmas de sempre. O governo golpista mente e mente contando com a benevolência das direitas mais raivosas das Américas. No Brasil, elas estão em polvorosa. Viúvas e saudosos da ditadura deixaram cair a máscara, declarando que desejariam que o país não tivesse adotado a postura da defesa de Zelaya.

A política de Estado de Honduras é a dos militares, a da repressão e a da tentativa de controlar as massas que não foram reduzidas à nova ordem. Censura, prisões, mortes etc compõem o esforço destes fascistas de almanaque de impedir o retorno ao poder do presidente eleito.

A estratégia dos usurpadores do poder, agora chamados por parte das grandes mídias brasileiras de ‘governo interino’ é de tentar fazer eleições fraudulentas e controladas pela força das armas. Estas serviriam para legitimar o novo governo frente aos olhos internos e, sobretudo, buscando a aprovação norte-americana e européia. Eles querem criar a ilusão de democracias burguesas de araque, tal como existem, em outros países latino-americanos.

O problema é que a volta de Zelaya, contando com o apoio explícito do governo brasileiro, atrapalhou o planejado. Agora, ninguém sabe o que virá ocorrer. O controle estritamente militar das massas é tarefa difícil. Zelaya vem demonstrando coragem e, ao contrário do velho script latino-americano, não aceitou asilar-se e cuidar de sua própria vida.

Não é difícil recordar, guardando-se as proporções, da figura de Allende, resistindo até a última bala no Palácio La Moneda. De dentro da embaixada brasileira, protagonizando um episódio político e diplomático inédito, o presidente hondurenho continua a resistir e a propor ao seu povo a clássica desobediência civil. Pela primeira vez, o governo brasileiro honra com imensa dignidade seus compromissos com a normalidade democrática do conjunto das Américas.
Os Estados Unidos, ao contrário do passado, não se alinharam automaticamente. Obama não apóia e nem pensa em se meter diretamente na questão, em virtude dos problemas internos gerados pela crise econômica que o país vem enfrentando e por priorizar outros interesses geopolíticos, tal como a questão iraniana. Pela primeira vez, na história latino-americana, ao invés de apoiar um golpe de Estado, o governo brasileiro o condenou clara e abertamente na assembléia geral das Nações Unidas. Portanto, ainda não é possível saber o desfecho desta história. Todavia, desta vez o golpe e os golpistas, mesmo se vitoriosos, pagarão pelos seus atos, destoando do passado, onde facilmente se legitimavam.


Reproduzido de Carta Maior

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Entenda o caso CUTRALE

A imagem da derrubada de uma plantação de laranjas por tratores que, segundo alega a mídia, eram pilotados por integrantes do MST, chocou a classe média brasileira.
Somando-se a isso, uma retórica completamente ideológica criminalizando este movimento social durante as reportagens da grande mídia.
Pronto: estava feito o estrago, de um lado, a empresa que emprega e produz para o país, de outro, os "baderneiros" do MST.

Antes de deixar aqui uma entrevista com o Economista João Pedro Stedile, enumero alguns FATOS:
  • Os 2,5 mil hectares  utilizados pela fazenda da empresa CUTRALE são terra ROUBADA de todos nós, a área pertence à união.Não entendo o porquê de, os defensores midiáticos dos "homens de bem" que "pagam impostos e são honestos", não denunciarem estes ladrões (grileiros de terra)  
  • A CUTRALE, empresa que se apoderou de terras da união para seu próprio lucro, detém 30% do suco de laranja no mundo, e sofre processos por formação de cartel.
  • A CUTRALE sofre processos por despejar esgoto não tratado nos rios da região.
  • Ao contrário do que se espalha, a união não doou as terras para a CUTRALE, o INCRA está brigando na justiça contra a empresa para recuperar as terras griladas.
  • A CUTRALE é ré em processo por formação de cartel
  • A CUTRALE é ré em processo por posse ilegal de armas de fogo.
  • A Cetesb  - Companhia Ambiental do Estado de São Paulo já multou a CUTRALE por emissão de fumaças tóxicas.
  • A Cetesb - Companhia Ambiental do Estado de São Paulo já multou a CUTRALE por causar mortandade de peixes nos rios próximos às suas plantações
Estes são FATOS, todo resto é ideologia.

Agora, segue a entrevista com Stedile, retirada do site do MST:



O integrante da coordenação nacional do MST João Pedro Stedile desmente as acusações de vandalismo na área da Cutrale, denuncia as consequências da exploração da empresa sobre os agricultores e cobra a apuração dos fatos.
"As famílias acampadas nos disseram que não roubaram nada, não depredaram nada. Depois da saída das familías, e antes da entrada da imprensa, o ambiente foi preparado para produzir imagens que impactaram a população. Propomos a constituição urgente de uma comissão independente que investigue a verdade", afirmou.
João Pedro também ressalta as diferenças entre o modelo de produção do agronegócio e da pequena agricultura: enquanto 98% do suco de laranja do país é exportado, o MST reitera seu compromisso com a produção de alimentos que cheguem à mesa do povo brasileiro.
Leia na íntegra as respostas da entrevista, concedida por e-mail ao jornal Folha de S. Paulo neste sábado (10/10) e publicada nesta segunda-feira (12/10).
Independente da situação legal da propriedade (o MST diz que é grilada), a ação em Iaras chama a atenção pela destruição deliberada de alimentos. Foi um erro destruir aqueles pés de laranja?
O fato de a área ser grilada, confirmado pelo Incra, não é algo secundário. Esse é o fato. Um dos princípios que o MST respeita é a autonomia das familias de nossa base tomar suas decisões, a partir das circunstâncias que vivem. As familias estão acampadas há mais de cinco anos. Entendemos a indignação daquelas familias. À distância, a população pode achar que derrubar pés de laranjas foi uma atitude desnecessária. A direita, por meio do serviço de inteligência da PM, soube utilizar as imagens contra a Reforma Agrária, se articulando com a Rede Globo para usá-las insistentemente. Nunca a Globo denunciou a grilagem, nem a superexploração que a Cutrale impõe aos agricultores.
Ao destruir alimentos, o MST não teme perder o apoio das camadas mais pobres da população, como das 12 milhões de famílias que dependem do Bolsa Família para comprar sua própria comida?
Cerca de 98% da produção de suco no pais é exportada. Esse suco não vai para a mesa dos pobres, com ou sem Bolsa Família. Já o nosso modelo para a agricultura brasileira quer assegurar a produção de alimentos, a geração de emprego e renda no meio rural. Queremos produzir comida e, inclusive, suco de laranja, para chegar à mesa de todo o povo brasileiro. Não para o mercado externo. Mesmo assim, a área de exploração da laranja diminiu em 400 mil hectares nesses dez anos, pela exploração que a Cutrale impõe aos agricultores.
O presidente Lula chamou a ação de "vandalismo". O movimento ainda o enxerga como um aliado dos trabalhadores sem terra?
Nós também condenamos todos os vandalismos. Usar 713 milhões de litros de venenos agricolas por ano, que degradam o meio ambiente, envenenam as águas e os alimentos tambem é um vandalismo. Nesse caso, o presidente está mal informado. Pois as famílias acampadas nos disseram que não roubaram nada, não depredaram nada. Depois da saída das familías, e antes da entrada da imprensa, o ambiente foi preparado para produzir imagens que impactaram a população. Propomos a constituição urgente de uma comissão independente que investigue a verdade.
É correto hoje dizer que a conjuntura nacional, principalmente de estabilidade econômica e de assistência oficial aos milhões de pobres do país, é desfavorável ao MST?
Os dados do censo agropecuário do IBGE revelam que menos de 15 mil latifundiários são donos de mais de 98 milhões de hectares. Cerca de 30% dos moradores do meio rural não sabem ler e escrever! E 80% não terminou o ensino fundamental. A renda média dos assalariados do campo é menos do que um salário mínimo. Diante dessa realidade, reafirmamos que é fundamental democratizar a propriedade da terra, como manda a Constituição, e mudar o modelo agrícola, para priorizar a produção de alimentos sadios - em equilíbrio com o ambiente e sem agrotóxicos - para o mercado interno. Os que acham que a Reforma Agrária não é mais necessária estão completamente alheios aos problemas e aos interesses do povo brasileiro.
Essa conjuntura deixa o MST sem foco?
Ao contrário. Nunca antes na conjuntura brasileira foram tão necessárias essas mudanças. Os grandes proprietários de terra se misturaram com o grande capital financeiro. Bancos e empresas transnacionais controlam a agricultura. E quando ocupamos uma terra para pressionar a aplicação da Reforma Agrária, enfrentamos todo esse mundão de interesses. O Brasil precisa de um projeto popular de desenvolvimento voltado para o povo, que de fato combata as causas estruturais da desigualdade social e garanta o acesso à terra, educaçao, moradia e saúde a todos os brasileiros, e nao apenas a uma minoria. E essa é a bandeira do MST.
Algum nome colocado para as eleições de 2010 anima o movimento? Dilma? Marina?
O MST sempre preservou sua autonomia. Nossos militantes participam das eleições como qualquer cidadão brasileiro. Infelizmente, cada vez que chega o periodo eleitoral, a direita se assanha para enquadrar as candidaturas contra o MST e a Reforma Agrária. Esse pedido de CPI tem apenas motivaçao eleitorial. O Roberto Caiado [líder do DEM na Câmara e fundados da UDR] confessou que o objetivo da CPI é provar que o governo repassa dinheiro para o MST fazer campanha para a Dilma. Essa afirmação no mínimo é ridicula para qualquer sujeito bem informado, se não viesse de uma mente improdutiva como todo latifúndio.
 

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os Quadrinhos de Gilberto Maringoni


Acaba de sair ‘Tocaia’, coletânea de histórias em quadrinhos produzidas por Gilberto Maringoni, entre 1989 e 2002. São 14 narrativas curtas, publicadas em lugares diversos, como CartaCapital, Kyx-93, Lúcifer, Metal Pesado, Panacéia, Front (todas no Brasil), Fluide Glacial (França), Orme (Itália), Seleções BD (Portugal) e ConSequencias (Espanha). Os trabalhos foram realizados enquanto o autor desenvolvia atividades de jornalista, chargista, editor gráfico, pesquisador e militante político.

Muito por essas características, Maringoni, colaborador de Carta Maior, exibe neste livro uma variedade de traços e de estilos nas várias histórias, que transitam para temas de aventura para humor, com uma narrativa ligeira e enxuta. Na apresentação do álbum, ele explica que tal miscelânea “expressa momentos diversos, pesquisas formais e estéticas distintas e expectativas variadas”.

O lançamento será no dia 13 de outubro (terça-feira), das 18:30 às 21:30 horas, na livraria Martins Fontes, Av. Paulista, 509 (em frente ao metrô Brigadeiro), em São Paulo.

Abaixo, segue a orelha do livro:

O AUTOR DA CILADA
Fernando Paiva, jornalista em São Paulo

“A grande contribuição de Minas Gerais para a cultura universal é a tocaia. A tocaia é uma homenagem à vítima. Morre sem aviso prévio, delicadamente, se possível desconhecendo o autor da cilada.” Assim falava Otto Lara Resende (1922-1992), um dos maiores frasistas brasileiros. À diferença de Otto, o autor deste livro não é mineiro – nasceu em São Paulo em 19XX. Mas não deixa de prestar com esta Tocaia uma homenagem a todos que amamos histórias em quadrinhos. Apenas não morremos sem aviso prévio. Nós, os tocaiados, sabemos direitinho quem é o autor da cilada. Um matador de enorme talento chamado Gilberto Maringoni.

Pois é, talento. Esta antiga moeda grega jamais faltou na algibeira do menino que, desde Bauru, no interior paulista, onde foi criado, zanzava pelo hangar do aeroclube local xeretando o cockpit de Paulistinhas e Aeroboeros. Claro, havia ainda as matinês no cine XXXXX, obrigatoriamente precedidas pela troca de gibis da época – Águia Negra, Nick Holmes, Combate, Capitão Marvel. Havia também a inesquecível coleção A Segunda Guerra Mundial, da editora Codex. Ela era ansiosamente espera da na banca para que o moleque conferisse na terceira e na quarta capas do fascículo quais as armas da semana.

Podia ser, por exemplo, um Messerschmitt BF-109 ou um Supermarine Spitfire, esses dois antípodas aéreos da Segunda Guerra que Maringoni copiou vezes sem fim, como todos os que se tornaram grandes ilustradores. Some-se a tudo isso uma voracidade pela leitura dos grandes clássicos de aventura – A Ilha do Tesouro, Vinte Mil Léguas Submarinas, Ben-Hur, Moby Dick, O Último dos Moicanos, Ivanhoé, Dom Quix ote, Três Escoteiros em Férias no rio Paraná, O Bugre-do-Chapéu-de-Anta – e pronto: eis aí a matéria de que os grandes quadrinistas são feitos.

Claro que nosso herói não poderia se contentar com tão pouco. Resolveu fazer arquitetura na FAU-USP e ainda tirou brevê de planador. Mesmo assim, se confessa – vejam como é insondável a alma humana – um arquiteto e um piloto frustrados. Está certo, convenhamos: Maringoni não é nenhum Niemeyer e muito menos um Chuck Yeager (dois de seus ídolos, aliás). Não projetou Brasília nem foi o primeiro a quebrar a barreira do som. Mas em matéria de tocaia gráfica e outras estórias, bota qualquer jagunço rosiano no chinelo. E quem duvidar que venha armado.

Tocaia e outros quadrinhos
Gilberto Maringoni
Devir Livraria
116 páginas, cor e p&b
45 reais

OEA confia no diálogo entre Micheletti e Zelaya, movimentos sociais não

Esperança. Esse é o sentimento da delegação da Organização dos Estados Americanos (OEA) acerca do diálogo entre governo provisório e deposto de Honduras, país que visitou na última quarta (7). Já a Frente Nacional de Resistência ao Golpe de Estado considerou a conversa como "um sonho" que deixou "mau sabor na boca". O motivo: as partes só aceitaram discutir dois dos onze pontos do Acordo de San José. Hoje (9), manifestações a favor do deposto Manuel Zelaya tomaram a capital Tegucigalpa. Os grupos populares, representados pela Frente, emitiram, hoje, um comunicado pessimista em relação ao diálogo. "Cada vez mais claro que o ‘diálogo Guaymuras’ [antigo nome de Honduras] foi um sonho para aparentar atitude conciliadora de uma oligarquia que continua reprimindo, matando e negando a liberdade", disse em referência ao governo provisório de Roberto Micheletti.
A Frente denunciou que, enquanto o governo de fato estabelecia o "enganoso diálogo", "a polícia e o exército empreendiam novamente ações repressivas contra os militantes". A ação ocorreu na quarta, em frente à embaixada estadunidense em Tegucigalpa.
Zelaya também se demonstrou pessimista sobre o diálogo, afirmando que o governo provisório "não entende a linguagem da paz e a civilização porque promove a barbárie e a força".
"Eu sou otimista ante qualquer cenário de diálogo, mas não quero, tampouco, apresentar falsas expectativas sobre a vontade dos que deram o golpe de Estado, que é sumamente negativa", disse ontem (8), em entrevista coletiva, na embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde está desde o último dia 21 de setembro.
Já a missão da OEA "está convencida que o diálogo iniciado com participação direta das partes pode conduzir à superação da crise política em que se encontra envolvido o país desde 28 de junho", disse em comunicado emitido hoje (9).
Na última quarta, estiveram em Tegucigalpa o secretário geral da OEA, José Miguel Insulza, um representante da Organização das Nações Unidas (ONU), onze de países americanos e um da Espanha, país observador da OEA. Eles mediaram o "Diálogo de Guaymuras", entre três representantes do governo provisório de Honduras e três do deposto, mas não obtiveram êxito imediato.
A OEA pede a aceitação do Acordo de San José, proposto pelo presidente costarriquenho e mediador inicial do conflito hondurenho, Óscar Arias.
Entre as medidas, está a restituição do presidente Zelaya, deposto pelas forças militares de Honduras no último dia 28 de junho. No entanto, o acordo proíbe a convocatória de uma Assembleia Nacional Constituinte, exigência dos movimentos sociais do país.
No diálogo, os governos provisório e deposto só aceitaram discutir dois dos onze pontos do Acordo de San José: a anistia aos golpistas e a restituição de Zelaya ao poder. A informação foi dada hoje pelo ministro salvadorenho de Relações Exteriores, Hugo Martínez, em entrevista a uma televisão local.
Hoje pela manhã, um marcha a favor do presidente deposto Zelaya saiu da universidade Pedagógica, na capital Tegucigalpa. Pela tarde, os bairros e as colônias da cidade foram tomados pelos protestos. As informações são do boletim da Frente. 


Reproduzido de Adital

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Barack Obama e o império infante


Excelente texto escrito por Rodrigo de Almeida, editorialista e colunista do Jornal do Brasil.



Os Estados Unidos foram estabelecidos como um “império infante”. Não foi Chávez ou Chomsky quem disse, mas George Washington. A conquista do território nacional deu-se como uma grande empreitada imperial, e desse alicerce sedimentado pelos "founding fathers" os EUA não escaparam.
Os Estados Unidos foram estabelecidos como um “império infante”. Não foi Chávez ou Chomsky quem disse, mas George Washington. A conquista do território nacional deu-se como uma grande empreitada imperial, e desse alicerce sedimentado pelos "founding fathers" os EUA não escaparam.

Nada como a combinação entre simbolismo e desejo (ou ingenuidade). Inibe a aceitação dos limites da mudança ou, no outro extremo, conduz à pressa na convicção de que se está diante de uma nova rota de fato. Tome-se o exemplo do presidente dos EUA, Barack Obama, e seus contraditórios movimentos retóricos e militares. De um lado, o chamamento à paz nas Nações Unidas. A defesa da não proliferação das armas nucleares até sua paulatina eliminação. A proibição das torturas contra prisioneiros em Guantánamo. O afrouxamento da retórica belicista, mesmo contra o Irã de Mahmoud Ahmadinejad. De outro, a conclamação ao combate ao terrorismo. A ênfase sobre o Afeganistão. A extensão de bases iraquianas. O acordo secreto com a Colômbia.

Esses dois cursos díspares ajudam a apontar o risco da projeção de expectativas exacerbadas sobre modificações de espetaculares consequências para o resto do mundo. Obama marca diferenças, é fato, em relação ao antecessor, mas nem nos EUA (nem no Brasil) presidentes fazem o que bem entendem. A política costuma ser bem mais racional e responsável do que supõem as torcidas passionais. Em matéria militar, no caso americano, isso é ainda mais cristalino. Nenhum presidente, mesmo o mais imperial, romperia de uma penada o apoio militar à Colômbia, tampouco abandonaria a defesa da tese das “fronteiras flexíveis”.

Há poucas semanas, o linguista Noam Chomsky escreveu um artigo no New York Times sobre a militarização da América Latina. Não só contabilizou as sete bases navais, aéreas e do Exército americano na Colômbia como mostrou a presença geral dos EUA na América Latina: as bases militares em Guantánamo (a mais conhecida), Honduras, El Salvador, Manta (Equador) e Aruba-Curaçao. São eixos do presente herdados de uma década de aumento da ajuda militar e de treinamento de oficiais latino-americanos, em táticas leves de infantaria para combater um “populismo radical” – conceito que, no contexto latino-americano, “provoca arrepios na espinha”, segundo Chomsky. “O treinamento militar está sendo transferido do Departamento de Estado para o Pentágono, eliminando regras quanto aos direitos humanos e a democracia antes sob a supervisão do Congresso que, embora fracas, pelo menos impediam algumas das piores violações”.

Além de apontar o narcoterrorismo na América Latina como a justificativa do que chama de uma “profunda mentalidade imperial”, Chomsky identifica outro movimento negativo: o alinhamento a objetivos mais amplos, que passam pelo Iraque e pelo Afeganistão. No primeiro, “a informação é praticamente nula sobre o destino das imensas bases militares norte-americanas que existem no país”. O custo da imensa embaixada, do tamanho de uma cidade, dentro de Bagdá, acaba de subir de US$ 1,5 bilhão para US$ 1,8 bilhão. Mais: o governo Obama também está construindo megaembaixadas no Paquistão e no Afeganistão, e EUA e Reino Unido estão pedindo que a base militar em Diego Garcia (a maior ilha do território britânico do Oceano Índico) fique de fora da planejada zona livre de armas nucleares africana – assim como as bases dos EUA estão fora dos limites de zonas similares no Pacífico.

Expectativas que estejam movidas por desejo ou ingenuidade tendem a ignorar o fato de que os EUA foram estabelecidos como um “império infante”. Não foi Chávez ou Chomsky quem disse, mas George Washington. A conquista do território nacional deu-se como uma grande empreitada imperial, e desse alicerce sedimentado pelos founding fathers os EUA não escaparam. A questão é a força dos símbolos e a gradação das mudanças, dirão os entusiastas de Obama. Refutá-los seria brejeirice. O problema não é reconhecimento de que mudanças são, de fato, gradativas, mas a ilusão das expectativas excessivas (vide o debate nacional do primeiro mandato do presidente Lula, em que a esquerda histórica jogou a toalha contra a suposta submissão lulista na condução dos assuntos nacionais).

Ok, abaixo o niilismo, mas manter os olhos críticos ajuda a lembrar que, nos oito anos da administração de Bill Clinton – transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz –, os EUA se envolveram em 48 intervenções militares, contra 16 em toda a Guerra Fria. (Números de The new american militarism, do estrategista militar Andrew J. Bacevich – US$ 15 na Amazon). Dispensável lembrar que governos democratas progressistas patrocinaram o desastre da invasão de Cuba e a guerra do Vietnã. Os tempos são outros, a jornada Obama mal começou, os falcões continuarão à espreita, e o mundo, inquieto, continuará dividido. Entre simbolismos, desejos e realidade.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ouvindo Mercedes Sosa Online

Discografia de Mercedes Sosa:

O que está em negrito, pode ser ouvido online, na Rádio Uol é só clicar.



  • La voz de la zafra (1962)
  • Canciones con fundamento (1965)
  • Yo no canto por cantar (1966)
  • Hermano (1966)
  • Para cantarle a mi gente (1967)
  • Con sabor a Mercedes Sosa (1968)
  • Mujeres argentinas (1969)
  • Navidad con Mercedes Sosa (1970)
  • El grito de la tierra (1970)
  • Homenaje a Violeta Parra (1971)
  • Hasta la victoria (1972)
  • Cantata Sudamericana (1972)
  • Traigo un pueblo en mi voz (1973)
  • Niño de mañana (1975)
  • A que florezca mi pueblo (1975)
  • La mamancy (1976)
  • En dirección del viento (1976)
  • O cio da terra (1977)
  • Mercedes Sosa interpreta a Atahualpa Yupanqui (1977)
  • Si se calla el cantor (1977)
  • Serenata para la tierra de uno (1979)
  • A quién doy (1980)
  • Gravado ao vivo no Brasil (1980)
  • Mercedes Sosa en Argentina (1982)
  • Mercedes Sosa (1983)
  • Como un pájaro libre (1983)
  • Recital (1983)
  • ¿Será posible el sur? (1984)
  • Vengo a ofrecer mi corazón (1985)
  • Corazón Americano (1985) (com Milton Nascimento e León Gieco)
  • Mercedes Sosa '86 (1986)
  • Mercedes Sosa '87 (1987)
  • Gracias a la vida (1987)
  • Amigos míos (1988)
  • En vivo en Europa (1990)
  • De mí (1991)
  • 30 años (1993)
  • Sino (1993)
  • Gestos de amor (1994)
  • Oro (1995)
  • Escondido en mi país (1996)
  • Alta fidelidad (1997) (com Charly García)
  • Al despertar (1998)
  • Misa Criolla (2000)
  • Acústico (2002)
  • Argentina quiere cantar (2003) (com Víctor Heredia e León Gieco)
  • Corazón Libre (2005)
  • Cantora (2009)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Beth Carvalho e Mercedes Sosa cantam: Sólo le pido a Dios

O Adeus a La Negra




O adeus a Mercedes Sosa


Sem perder sua ligação com o folclore, música predominante do interior argentino, Mercedes Sosa circulou por diversos gêneros musicais, enfrentou a censura de ditadores e dividiu o palco em todo mundo com músicos de diferentes estilos e gerações. Centenas de fãs e personalidades fizeram fila do lado de fora do Congresso da Nação de Buenos Aires, onde a cantora foi velada até o meio-dia de segunda-feira. Homens e mulheres de todas as idades e com flores nas mãos esperavam pacientemente para dar seu último adeus à artista.




A cantora argentina Mercedes Sosa morreu domingo (4), aos 74 anos. Hospitalizada desde 18 de setembro em Buenos Aires, seu estado de saúde se agravou na última semana devido a problemas renais e hepáticos. Sem perder sua ligação com o folclore, música predominante do interior argentino, Mercedes circulou por diversos gêneros musicais, enfrentou a censura de ditadores e dividiu o palco em todo mundo com músicos de diferentes estilos e gerações.
Centenas de fãs e personalidades fizeram fila do lado de fora do Congresso da Nação de Buenos Aires, onde a cantora foi velada até o meio-dia de segunda-feira. Homens e mulheres de todas as idades e com flores nas mãos esperavam pacientemente para dar seu último adeus à artista, cujo corpo ficará exposto no Salão dos Passos Perdidos.
"A secretária de Cultura da Nação se despede com profundo pesar de Mercedes Sosa, La Negra, uma das mais trascendentais representantes da cultura argentina no mundo", afirmou Jorge Coscia, secretário de Cultura, assegurando que "sua voz é única e será para sempre inesquecível".
"Dona de um repertório comprometido com a identidade latino-americana e mulher de sensibilidade social, La Negra foi uma das maiores figuras do canto popular universal", afirmou ainda.
"A Argentina chora uma de suas filhas mais talentosas", assinalou, por sua parte, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.
"Foi uma mulher que transcedeu as fronteiras da música e projetou o folclore não apenas como um emblema artístico e cultural a nível mundial, como também o canto de liberdade e de justiça", acescentou.
"Foi a voz dos que não tinham voz na época da ditadura e levou a angústia pelos direitos humanos na Argentina a todo o mundo", declarou o músico Víctor Heredia, cantor e compositor de algumas músicas que ficaram famosas na voz de Mercedes Sosa como "Razón de Vivir".
Governo brasileiro lamenta
O governo brasileiro lamentou a morte da cantora argentina e agradeceu por sua contribuição à música e à vida.
"Gracias, Mercedes, que nos ha dado tanto!", disse o ministro de Cultura, Juca Ferreira, em espanhol, em uma nota oficial.
Ferreira destacou a voz incomparável e o comprometimento de Sosa com a arte ibero-americana e ressaltou que sua voz potente rompeu fronteiras e transmitiu ensinamentos além de territórios e bandeiras.
"Com Mercedes Sosa aprendemos o quanto temos para compartilhar com povos e nações. Ela nos deu o sentido de lugar, de pertinência a uma latinidade que nos consagra em beleza e tragédias comuns", concluiu o ministro.
Luto oficial
A presidente argentina, Cristina Fernández, vai declarar luto oficial pela morte da cantora Mercedes Sosa.
A chefe de Estado decidiu antecipar o retorno de uma viagem à Patagônia para assinar, assim que chegue a Buenos Aires, o decreto de luto oficial pela morte da artista.
O futebol argentino fez neste domingo uma homenagem à cantora popular Mercedes Sosa, com um minuto de silêncio antes de cada partida da sétima rodada do Torneio Apertura 2009 da primeira divisão.