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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Hoje: 140 anos de Lênin


Em 16 de abril de 1917, Vladímir Lenin (ou Lênin), líder da facção bolchevique do Partido Social-Democrata Russo, retorna a Petrogrado após uma década de permanência no exílio para assumir as rédeas da revolução russa. Um mês antes, o czar Nicolau II havia sido tirado do poder quando tropas do exército russo juntaram-se a uma revolta dos trabalhadores em Petrogrado (hoje São Petersburgo), a capital russa.

Por Max Altamn, para o Opera Mundi

Nascido Vladímir Ilhitch Uliánov em 1870, Lenin foi atraído para a causa revolucionária após a execução de seu irmão em 1887 acusado de participar da conspiração para assassinar o czar Alexandre III. Estudou direito e exerceu a profissão em Petrogrado (à época São. Petersburgo), onde se juntou aos círculos revolucionários marxistas. Em 1895, ajudou a organizar grupos marxistas em torno de uma entidade denominada “União para a Luta pela Libertação da Classe Operária” na tentativa de recrutar trabalhadores para a causa marxista. Em dezembro de 1895, Lenin e outros dirigentes da União foram presos. Lenin ficou preso por um ano e depois enviado à Sibéria onde permaneceu preso por mais três anos.

Terminado o exílio, em 1900, Lenin viajou à Europa Ocidental onde prosseguiu em suas atividades revolucionárias. Foi nesse período que adotou o pseudônimo Lenin. Em 1902, publicou um panfleto intitulado “O Que Fazer?”, em que defende que somente um partido disciplinado, formado por revolucionários profissionais, poderia trazer o socialismo à Rússia. Em 1903, encontrou-se com outros marxistas russos em Londres, quando criaram o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. Entretanto, desde o nascedouro havia uma cisão entre os bolcheviques (majoritários) de Lenin que defendiam a ação revolucionária ativa e os Mencheviques que defendiam um movimento reformista em direção ao socialismo. Esses dois grupos permaneciam no mesmo partido porém em crescente confrontação até que em 1912, Lênin proclama um racha definitivo, criando o Partido Bolchevique.


Após a eclosão da revolução de janeiro de 1905, Lenin retornou à Rússia. A revolução que consistia principalmente de greves que estouravam em muitos lugares do império russo, chegou ao fim quando Nicolau II prometeu reformas, inclusive a adoção de uma constituição e o estabelecimento de um parlamento eleito pelo povo. Porém, uma vez restaurada a ordem, o czar anulou a maioria dessas reformas e em 1907 Lenin teve de novo de voltar ao exílio.

Lenin opôs-se à Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914, afirmando que se tratava de um conflito entre potências imperialistas, conclamando os soldados filhos do proletariado a voltar suas armas contra os líderes capitalistas que os estavam enviando como carne de canhão para morrer nas trincheiras. Para a Rússia, esta guerra se constituía num desastre sem precedentes: as baixas russas eram maiores do que qualquer outra nação em qualquer das guerras anteriores. Enquanto isso, a economia encontrava-se totalmente destroçada em virtude do custo do esforço de guerra. Em fevereiro de 1917, distúrbios e greves eclodiram em Petrogrado devido à escassez de alimentos. As desmoralizadas tropas uniram-se aos grevistas e em 15 daquele mês o czar abdicou, pondo fim a séculos de governo czarista. Como consequência da Revolução de Fevereiro, o poder foi dividido entre o ineficaz Governo Provisório de Kerensky e os sovietes, conselhos de soldados e operários.

Após a irrupção da Revolução de Fevereiro, as autoridades alemãs permitiram que Lenin e seus auxiliares diretos atravessassem a Alemanha a caminho da Suíça para a Suécia em um vagão férreo blindado. Berlim esperava que o retorno dos socialistas anti-guerra à Rússia solapasse o esforço de guerra russo, que prosseguia sob a administração do governo provisório. A Rússia que participava da Tríplice Entente com Reino Unido e França era inimiga da Alemanha, esta aliada à Itália e ao Império Austro-Húngaro, na Primeira Guerra Mundial. Lenin conclamava pela derrubada do governo de Kerensky pelos sovietes, sendo por isso acoimado de “agente alemão” pelos dirigentes governamentais. Em julho viu-se obrigado a fugir para a Finlândia, porém seu lema por “paz, terra e pão” passa a ter um crescente apoio popular e os bolcheviques passam a ter maioria no soviete de Petrogrado. No começo de outubro, Lenin regressa secretamente a Petrogrado para no final do mês comandar a tomada do Palácio de Inverno pelos guardas vermelhos e a consequente derrubada do governo provisório. Com o triunfo da Revolução de Outubro, Lenin e seu Partido Bolchevique assumem o poder.

Lenin tornou-se o chefe indiscutível do primeiro Estado proletário da História. Seu governo assinou a paz com a Alemanha, nacionalizou a indústria e distribuiu a terra. Mas, no começo de 1918, teve de enfrentar uma devastadora guerra civil contra o Exército Branco partidário do czarismo e contra tropas de 13 nações ocidentais. Em 1920, todas essas forces estavam derrotadas pelo Exército Vermelho e em 1922 era criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Após a morte de Lenin, no começo de 1924, seu corpo foi embalsamado e colocado num mausoleu perto do Kremlin. Petrogrado trocou de nome para Leningrado em sua homenagem. Depois de uma luta intestina pela sua sucessão, Joseph Stalin sucedeu-o como chefe da União Soviética. 


Original em Vermelho

sábado, 31 de outubro de 2009

Eric Hobsbawm: "Me recuso a dizer que perdi a esperança"

O historiador Eric Hobsbawm - que tem sua trilogia (A Era das Revoluções, A Era do Capital e A Era dos Extremos) reeditada no Brasil - diz que o aniversário da queda do Muro de Berlim deveria motivar uma discussão sobre o Ocidente pós-guerra fria. Defendendo suas convicções marxistas, ele afirmou: "Me recuso a dizer que perdi a esperança". Para Hobsbawn, o capitalismo chegou ao seu limite.

Quando Eric Hobsbawm estava escrevendo "A Era do Capital" -lançado em 1975-, explicou que fazia um imenso esforço para estudar algo que não lhe agradava nem um pouco. Hoje, o historiador marxista diz ter o mesmo sentimento, "eu não gostava da burguesia vitoriana e ainda não gosto, embora apreciasse o dinamismo daquele tempo". À essa impressão, porém, vem adicionando, nos últimos anos, mais uma, a nostalgia.

"Agora, quando comparo o século 19 com o 20, sinto simpatia pelo modo como aqueles homens acreditavam no progresso. Foi um século de esperança. E essa minha nostalgia cresce à medida que o tempo passa e vejo, com pessimismo, o que vem acontecendo", diz.

Hobsbawm, 92, conversou com a Folha por telefone, de Londres, justamente sobre a reedição no Brasil de sua trilogia sobre o século 19 ("A Era das Revoluções", "A Era do Capital", "A Era dos Impérios"), já um clássico da historiografia sobre o período, pela editora Paz e Terra -que também relançará em 2010 outro título do historiador, "Bandidos".

Na trilogia, Hobsbawm analisou o que chamou de "longo século 19", período que vai de 1789 a 1914. Começa com as revoluções europeias que definiram a expansão do capitalismo e do liberalismo no planeta -a Francesa e a Industrial inglesa- e vai até as vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Apesar dos ataques que sofre por ainda defender a bandeira do comunismo, os três volumes de Hobsbawm são reimpressos todos os anos na Inglaterra, tendo sua explicação sobre o tema se imposto como uma espécie de cânone.

Hobsbawm é com frequência procurado para comentar temas do presente -algo que seus críticos tampouco perdoam. Agora, às vésperas do aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim (em novembro), seu conhecimento sobre os tempos que estudou e vivenciou, assim como suas convicções políticas, são novamente trazidos ao debate.

"A queda do Muro foi o fim de uma era. Não só para a Europa do Leste, mas para o mundo inteiro. O capitalismo chegou a seu limite e a a crise econômica mundial indica claramente o fim de um ciclo."

Contudo, o historiador considera que as discussões sobre o episódio estão muito centradas em tentar entender por que a experiência comunista fracassou, quando o que deveria estar na pauta é o futuro do Ocidente. Para ele, o mundo pós-Guerra Fria ainda não fez uma necessária autocrítica.

Leia trechos da entrevista que Eric Hobsbawm concedeu à Folha:

O que mais deveria ser discutido no aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim?

A celebração é oportuna porque o capitalismo agora chegou a seu limite. A crise econômica mundial é o fim de um ciclo, que começou a ruir quando caiu o Muro em Berlim. No Leste Europeu, vejo dificuldade em rompimento com o legado comunista. Mas é o Ocidente quem deve refletir mais sobre o que ocorreu na Guerra Fria e o que pode ser feito para evitar um novo colapso.

As "Eras" são consideradas um exemplo de boa análise histórica dedicada a um amplo período. O sr. acha que falta ambição a historiadores hoje?

Para fazer história com uma perspectiva maior, é preciso ser um intelectual maduro. Hoje, os jovens historiadores gastam muito mais tempo em suas especializações. Quando estão aptos a dar um passo maior, hesitam. A história equivocadamente se afastou da "história total" que fazia Fernand Braudel [1902-1985].

O sr. começa "A Era dos Impérios" contando uma história autobiográfica (a do encontro de seus pais no Egito) e então propõe uma reflexão sobre história e memória. Quão diferente foi escrever este volume, que se refere a passagens mais próximas do seu olhar no tempo, do que os anteriores?
Neste livro tive de trabalhar com o que chamo de "zona de penumbra", onde se misturam nossas lembranças e tradições familiares com o que aprendemos depois sobre determinado período. Não é fácil, pois trata-se de um território de incertezas e em que há um elemento afetivo. Por outro lado, trata-se de uma oportunidade de estimular aquele que lê a pensar sobre como seu próprio passado está relacionado com a história.
Em seu novo livro ("Reappraisals"), o historiador britânico Tony Judt escreveu um ensaio sobre o senhor ("Eric Hobsbawm and the Romance of Communism"). Neste, mostra admiração por seu conhecimento, mas faz uma severa crítica: "para fazer o bem no novo século, nós devemos começar dizendo a verdade sobre o antigo. Hobsbawm se recusa a mirar o demônio na cara e chamá-lo pelo nome". Como o sr. responderia a seu colega?
A crítica de Judt não se justifica. O que ele quer é que eu diga que estava errado. Em "A Era dos Extremos", eu encaro o problema, o critico e condeno. Não tenho problemas em dizer que a Revolução Russa causou dor e sofrimento à população russa. Porém, o esforço revolucionário foi algo heroico. Uma tentativa de melhorar a sociedade como não se viu mais na história. Me recuso a dizer que perdi a esperança.
O sr. havia dito, numa entrevista ao "Independent", que havia alguns clubes dos quais não iria ser sócio nunca, referindo-se aos intelectuais ex-comunistas. Ainda pensa assim?
Não vejo problema quando um intelectual, especialmente de países do Leste Europeu, percebe que a democracia é melhor do que o sistema autoritário em que vivia. É normal a mudança de posição quando surgem fatos novos. O ex-comunista que condeno é aquele que antes militava em grupos de esquerda e que hoje tem uma bandeira única, a de ser anticomunista apenas, esquecendo-se do resto das ideias pelas quais lutava. Também me entristece ver intelectuais jovens, que não passaram pela história dessas lutas, repetindo e tentando tirar benefício desse mesmo tipo de propaganda.
A América Latina está às vésperas de comemorar, em vários países, os 200 anos do início das lutas de independência. Que análise faz do atual momento?
A dependência econômica ainda é um fato, mas politicamente a América Latina é cada vez mais livre. Washington jamais voltará a exercer a influência de antes, tampouco a apoiar golpes ou ditaduras como fez no passado. O que está acontecendo em Honduras é um sinal disso. O Brasil tem papel central nesse processo, uma vez que o México se transforma cada vez mais em apêndice dos EUA.