quarta-feira, 30 de junho de 2010

Cantor cubano Silvio Rodríguez responde a palhaço de Miami

O repórter Juan Manuel Cao é um conhecido assalariado de Miami, que tem por mania tentar "constranger" cubanos que defendem a Revolução em suas entrevistas.

Confiram a resposta tranquila dada pelo cantor cubano Silvio Rodríguez ao "jornalista" da turma de Miami numa coletiva em Puerto Rico, pouco antes de Silvio iniciar sua turnê pelos EUA (após de anos de proibição de entrada por parte desse país).


terça-feira, 29 de junho de 2010

Emir Sader propõe ficha limpa da ditadura

A anistia decretada pela ditadura tentou limpar tudo, igualar tudo – torturadores e torturados. A forma como se deu a transição da ditadura à democracia permitiu que políticos que estiveram vinculados à ditadura, aparecessem como convertidos à democracia.

Porém nunca esqueceremos que o golpe militar rompeu o processo democrático brasileiro, depôs um presidente que havia sido eleito vice-presidente, tinha assumido a presidência com a renúncia de quem tinha sido eleito para este posto, aceitando inclusive recortar seus poderes, com a imposição do parlamentarismo. Posteriormente, João Goulart convocou um referendo sobre a forma de governo e venceu, democraticamente, o retorno do presidencialismo.

Esse presidente, legítimo e legalmente presidente, foi derrubado por um movimento militar golpista, que terminou com a democracia e impôs uma ditadura ao país. Se valeram dos recursos públicos para reprimir ao povo e a tudo o que tivesse que ver com democracia: organizações populares, Parlamento, Judiciário, partidos, movimentos culturais, imprensa popular. Contaram com o apoio e o beneplácito da imprensa, do governo dos EUA, de boa parte da elite política, do grande empresariado e suas associações. Prenderam arbitrariamente, torturaram, assassinaram a milhares de brasileiros, os condenaram sem processos, promoveram um regime do terror.

A volta à democracia foi tutelada pelos próprios militares que haviam dado o golpe e imposto a ditadura. Decretaram uma anistia que os poupasse de pagar pelos crimes que tinham cometido, assim como seus beneficiários – que se enriqueceram com o arrocho salarial, a intervenção nos sindicatos, a política econômica favorável aos grandes monopólios daqui e de fora.

Está bem o Ficha Limpa da corrupção. Mas por que não o Ficha Limpa da ditadura? Por que não impugnar todos os que participaram da ditadura, a apoiaram, se beneficiaram dela, foram políticos do regime, ocuparam cargos, foram governadores, prefeitos biônicos? Todos foram cúmplices, por ação ou por inação do episódio mais brutal da vida política brasileira.

Muitos deles ainda andam por ai. Façamos uma lista dos que foram políticos da ditadura e impunemente andam por ai, querendo definir quem é democrático e quem não é, quando eles foram, de corpo e alma, adeptos da ditadura e nunca fizeram autocrítica do seu passado.

Só para começar, me recordo de alguns deles:

Marco Maciel
José Sarney
José Agripino
Jorge Bornhausen
Romeu Tuma
Paulo Maluf

Postado por Emir Sader em seu Blog

1 ano do golpe em Honduras...

domingo, 27 de junho de 2010

A anatomia do medo - Artigo de Immanuel Wallerstein

O medo não é irracional. É a consequência da crise estrutural do sistema-mundo. 

O medo é a mais universal emoção pública na maioria do mundo actual. Este medo não é irracional, mas não conduz necessariamente a formas sábias de lidar com os presumíveis perigos. O modo como actua pode ser claramente compreendido em dois acontecimentos importantes do passado recente. O primeiro foi a dramática queda da Bolsa de Valores de Nova York a 6 de Maio deste ano – uma queda que espantou a todos e durou apenas poucos minutos. O segundo foram as revoltas em Atenas, que já causaram três mortes e que continuam.
O que aconteceu na Bolsa? Parece que, naquela manhã, a média do Dow Jones industrial caíra cerca de 300 pontos. Foi uma descida considerável (cerca de 3%), mas que não parecia uma reacção incomum a uma combinação de más notícias em várias frentes nos Estados Unidos, a que se juntaram as crescentes incertezas sobre as probabilidades de a Grécia evitar a bancarrota.
Mas, de repente, no fim da tarde, o Dow caiu mais 700 pontos com rapidez incrível. Foi a maior queda de transacções jamais registada num só dia. Ninguém a previu, e aparentemente deixou os operadores estupefactos. Algumas acções importantes caíram 90% e passaram a valer um cêntimo. Então, os operadores “assistiram, boqueabertos”, e quase com a mesma rapidez que acontecera a queda, ao Dow a subir de novo, terminando com uma perda de “apenas” 371,80 pontos – para o aparente alívio dos operadores do mercado.
Evidentemente que todos procuraram uma explicação. A primeira fornecida foi que um único operador tinha um “dedo gordo” e pode ter introduzido uma operação de milhares de milhões, quando o que queria eram milhões. O problema com esta explicação foi que ninguém conseguiu localizar esta pessoa ou demonstrar que ele existe ou teve, de facto, um “dedo gordo”.
Começou então a circular uma explicação alternativa. A Bolsa de Nova York tem um mecanismo de desaceleração quando as operações parecem estar demasiado rápidas. Mas outras bolsas não têm o mesmo mecanismo. Assim, dizem alguns, os operadores, diante da desaceleração da Bolsa de Nova York, decidiram transferir as operações para outras bolsas. Alguns sugerem outra variante desta explicação: a culpa foi das chamadas estratégias algorítmicas de operação, que envolvem mecanismos automáticos de compra e venda pré-programados para fazer essa transferência. A falta de coordenação entre as várias bolsas, diz-se, é culpa dos regulamentos, e agora alguns argumentam que todas as bolsas deveriam ter mecanismos de desaceleração conjuntos. Para outros, a queda pode ter sido causada por um mecanismo automático, assim não se pode culpar máquinas em vez de pessoas.

Leia o restante no site do Bloco de Esquerda (Portugal)

sábado, 26 de junho de 2010

Ingerência golpista da USAID na Bolívia

No início deste mês, o presidente da Bolívia, Evo Morales, voltou a denunciar à Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) e após acusá-la de se infiltrar nos movimentos sociais para provocar conflitos com o fim de desestabilizar o Governo, advertiu sobre a sua possível expulsão se persistirem nestes esforços.

Tarefa impossível para Morales. USAID jamais será moderada. Esta é uma entidade que faz parte do domínio que o imperialismo norteamericano exerce na América Latina, África e Ásia. É uma engrenagem de uma elaborada a estratégia do capital monopolista destinado a cooperar no incremento dos interesses do império.

Está máquina foi montada após a Segunda Guerra Mundial e é composta pela USAID, a Aliança para o Progresso (CIAP), substituída posteriormente pela Fundação Interamericana (IAF), o Banco de Importações e Exportações (Eximbank), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID ), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento ou Banco Mundial (BM), Organização para a Promoção do Investimento na América Latina (Adela) e seus outros tentaculos financeiros.

USAID iniciou suas atividades no governo de Harry S. Truman em 1946 e,desde então, distribuiu mais de 200 bilhões de dólares em "ajudas" militares e econômicas aos países onde exerce seu domínio na proteção dos seus interesses. Quanto a Bolívia deve a esta organização?. É um fato que deve ser conhecido.

USAID utiliza pelo menos quatro tipos de programas: Empréstimos para o Desenvolvimento, Programas de Ajuda Técnica, Fundos para Emergências e o Programa de Apoio Político-Militar. Este último faz parte de um vasto aparato de espionagem e intervenção norteamericano.

Programa de Apoio Político-Militar é a razão para sua existência, pois é destinado a conter e destruir os movimentos revolucionários na América Latina e para isso desenvolveu um manual sobre repressão confidencial, que na Bolívia foi revelado pelo já desaparecido jornal Hoy, na sua edição de 23 de novembro de 1978.

Leia o restante em ANNCOL

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Marina Silva revela-se ainda mais à direita


Três pérolas de Marina, o suficiente para matar qualquer a esperança de qualquer incauto em relação a projeto alternativo de esquerda vanguardeado pela sigla PV:


Previdência - Discurso Tucano
“Acho que temos de atualizar essa questão da aposentadoria em função da longevidade das pessoas. Não dá para que a gente continue no mesmo processo. Vamos ter de pensar nesta atualização.”


Crítica a Serra - Dobrando à direita

“Eu diria que as pessoas conseguem criticar a máquina pública o tempo todo, mas na hora que é apresentado um problema, ao invés de ir na raiz, prefere inchar a máquina pública. Por isso disse que é um puxadinho [a sugestão de Serra de criar o Ministério da Segurança]"


Taxa de Juros - "Enxugamento do estado" como forma alternativa de evitar a inflação

“De fato, temos uma taxa de juros elevada, e o que eu tenho dito é que a taxa de juro é alta porque temos historicamente a meta de inflação elevando os juros, e vamos ter de mudar essa visão e esse procedimento. No caso do Brasil precisamos de juros mais comedidos para melhorar os investimentos no Brasil. O gasto público não depende do Branco Central. Hoje a elevação da taxa de juro é feita pelo Banco Central porque é a única ferramenta.”

Estas declarações foram extraídas de entrevista dada por Marina Silva à jornalista de direita Miriam Leitão, da Globo. 
A transcrição da entrevista está no próprio site da vênus platinada.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A triste sina de Heloísa Helena


Por Emir Sader

Heloisa Helena havia feito campanha contra o aborto, embora presidente de um partido que havia se pronunciado a favor. Ao mesmo tempo, ela afirmou que preferia seus 10 minutos na TV Globo do que não renovar a concessão do canal de televisão privado venezuelano feito por Hugo Chavez.

Sabia-se, pelo seu próprio estilo – revelado claramente na campanha eleitoral de 2006 -, que ela atua individualmente e não como dirigente de um coletivo partidário. Recentemente ela questionou o resultado da consulta interna feita para indicar o candidato à presidência. Ela preferia que o PSOL apoiasse Marina, mas rapidamente se revelou, nas negociações, como não havia identidade ideológica e política mínima entre o partido e a candidatura da Marina.

Heloisa Helena tinha afirmado que não faria campanha nas eleições para o vencedor da consulta – Plinio de Arruda Sampaio. Mais recentemente, reafirmou que apóia Marina nas eleições presidenciais, contrariando frontalmente a posição formalmente adotada pelo PSOL. Plinio pediu que ela seja removida da direção do PSOL, pelas posições que tem tomado.

Heloisa Helena disse também que “já entregou sua cota” e que agora se dedicaria ao povo do Alagoas – isto é, à sua candidatura ao Senado. Acrescentou que teria sido usada pelo partido na campanha presidencial.

Uma atitude absolutamente individualista, coerente com o seu comportamento na campanha presidencial, que privilegia sua campanha, que lhe garanta um mandato, independentemente do desempenho do seu partido. Já na campanha para vereadora, Heloisa Helena havia dito que o companheiro de bancada do mesmo partido tinha sido eleito sem mérito, pelos votos dela, que não merecia ter um mandato.

Não será de surpreender se ela fizer a campanha da Marina e, finalmente, se eleita, sair definitivamente do PSOL e se vincular ao PV ou a algum outro partido, ou, se não eleita, se retirar da política.

Uma triste sina de quem pretendia encarnar uma perspectiva mais radical do que o PT e construir um partido com essa perspectiva. Hoje falta ao respeito com o seu partido e com Plinio de Arruda Sampaio e toda sua trajetória de lutas na esquerda brasileira.

Publicado em Carta Maior e replicado pelo Blog do Miro

terça-feira, 22 de junho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Vaticano condena Saramago ...

...Grande coisa!

Abaixo, algumas pérolas extraídas do artigo escrito por um tal Claudio Toscani  para o jornal oficial  L'Osservatore Romano:

"Foi um homem e um intelectual de nenhuma transigência metafísica, até o final ancorado numa confiança no materialismo histórico, aliás o marxismo"

"Com respeito à religião, sua mente fixada como sempre por uma desestabilizadora intenção de banalizar o sagrado e por um materialismo libertário que quanto mais avançava nos anos mais se radicalizava, Saramago nunca se abandonou à simplicidade teológica"

"Um populista extremista como ele, que se havia encarregado de examinar os males do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das falhas estruturais humanas, desde as histórico-políticas até as sócio-econômicas, em vez de atacar logo o plano metafísico"  

Na opinião deste Blog, trata-se de um prêmio a mais, ganho postumamente pelo escritor português.

Que as homenagens da Santa Sé fiquem guardadas para gente como Lech Walessa ou  Alvaro Uribe.

Fragmentos extraídos de artigo crítico publicado em Com Texto Livre 

Saramago - Quando esteve em Porto Alegre I

"Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada(...)"

José Saramago - Em Porto Alegre, no V Forum Social Mundial (2005)

“Obrigado Saramago”

Centenas de pessoas bateram palmas e gritaram “Obrigado Saramago”, quando o corpo saiu da Câmara de Lisboa para o cemitério do Alto de São João, onde foi cremado. Cavaco Silva não respondeu ao apelo de Francisco Louçã(deputado do partido Bloco de Esquerda) para esquecer “mesquinhez do passado”. Jornal do Vaticano definiu Saramago como “populista e extremista”. 

Leia  o restante aqui

 

sábado, 19 de junho de 2010

Veteranos da França Livre retornam a Londres, 70 anos depois

Eles não chegaram a ouvir a convocação do general Charles de Gaulle à resistência - e não precisaram. No dia 18 de junho de 1940, no momento em que o general pronunciava seu discurso no microfone da BBC, eles embarcavam nos portos da Bretanha e chegavam à costa inglesa.
Setenta anos depois de terem viajado para dar continuidade ao combate, após o marechal Pétain assinar o armistício com os alemães, eles retornaram a Londres a tempo de presenciar as comoventes cerimônias no Hospital Real de Chelsea, o 'Invalides' inglês.
Cento e cinquenta veteranos franceses, entre eles alguns Companheiros da Libertação, ordem criada pelo general para recompensar os membros mais valiosos, viajaram de Paris até Londres em um Eurostar (trem de alta velocidade) especial, decorado com as cores da França Livre e da Resistência e com os retratos de Gaulle, Jean Moulin, general Leclerc, Berty Albrecht e Félix Eboué.
Os veteranos, curvados, de cabelos brancos e bengalas, ainda têm fresco, na memória, o carisma de Gaulle.
Por que você fugiu da França ocupada? Claude Rosa, 90 anos, encolhe os ombros. "Visceral, você sabe o que isso significa? Automático, evidente, os alemães estavam lá, tínhamos que fazer alguma coisa, dane-se tudo", irritou-se.
Ao mesmo tempo, uma formação rasgava o céu de Londres: um Spitfire, o caça emblemático da Força Aérea Real, cercado pelos sucessores, um Rafale francês e um Typhoon inglês. Muito simbólico.
No palco, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron celebravam a amizade das duas nações. O coro do exército francês cantava "Le Chant des Partisans", os guardas reais e republicanos uniformizados apresentavam as armas...
Os veteranos cultivavam outra nostalgia, sobre o jovem e heróico general.
André Quélen se lembra da "figura imponente", a "autoridade" e seu carisma. "Quando ele falava, não escutávamos outra coisa". No dia 18 de junho de 1940, ele embarcada em Conquet com um camarada motivado por um "sentimento patriótico", retornando à França somente em 1944.
Com uma história parecida, o almirante Emile Chaline tinha apenas 18 anos quando seu pai lhe disse: "vá para a Inglaterra e cumpra o seu dever". Pertencente as Forças Navais francesas livres, ele vestia seu uniforme com quatro estrelas de vice-almirante da esquadra, como insígnias de grande oficiais da Legião de Honra. "Mas a minha mais bela condecoração, é a insígnia da França Livre", um modesto losango com a cruz de Lorraine.

"Le Chant des Partisans" por Jean Ferrat




Fonte: France Presse (em Google Notícias)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago: Presente!


O escritor português prêmio Nobel de Literatura José Saramago faleceu nesta sexta-feira (18/6). "O estado de saúde dele se agravou nos últimos dias" segundo Zeferino Coelho, editor português e amigo pessoal do escritor.
Entre seus livros mais conhecidos, publicados em mais de 30 países, estão "Ensaio sobre a cegueira", "O Evangelho segundo Jesus Cristo" e "A viagem do elefante". Todas as obras foram editadas no Brasil pela Companhia das Letras. Luiz Schwarcz, editor brasileiro e amigo pessoal do escritor, publicou no blog da editora o texto "Saudade não tem remédio", recordando momentos com o escritor e lamentando o ocorrido.
Nascido na província do Ribatejo, José Saramago foi obrigado a interromper os estudos secundários devido a dificuldades econômicas, tendo a partir de então exercido diversas atividades profissionais: serralheiro mecânico, desenhista, funcionário público, editor, jornalista, entre outras. Seu primeiro livro foi publicado em 1947. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente da literatura, primeiro como tradutor, depois como autor. 
Saramago foi o primeiro escritor em língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de Literatura em 1998. Em suas diversas viagens ao Brasil, fez grandes amizades com personalidades brasileiras como o escritor Jorge Amado e o compositor Caetano Veloso.
Além da sua vasta obra, Saramago deixa uma fundação com o seu nome coordenada por sua esposa Pilar Del Río, e tem como obetivo - como se lê nos estatutos - "promover o estudo da obra literária do seu Instituidor bem como da sua correspondência e espólio e respectiva preservação". Nesta sexta-feira (18/06), o site de Saramago publica exclusivamente o seguinte comunicado em inglês e espanhol:
"Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila."


Livros de José Saramago:

O ano na morte de Ricardo Reis (1988) 
A jangada de pedra (1988) 
História do cerco de Lisboa (1989)
O evangelho segundo Jesus Cristo (1991) 
Manual de pintura e caligrafia (1992)
In nomine dei (1993)
Objecto Quase (1994)
Ensaio sobre a cegueira (1995)
A bagagem do viajante (1996)  
Cadernos de Lanzarote (1997)
Todos os nomes (1997)
Viagem a Portugal (1997) 
O conto da ilha desconhecida (1998)
Que farei com este livro? (1998) 
Cadernos de Lanzarote II (1999)
A caverna (2000)
A maior flor do mundo (2001)
O homem duplicado (2002)
Ensaiso sobre a lucidez (2004)
Don Giovanni ou o dissoluto absolvido (2005)
As intermitências da morte (2005)
As pequenas memórias (2006)
O ano de 1933 (2007) 
A viagem do elefante (2008)  
O caderno (2009) 
Caim (2009)  

Matéria do Opera Mundi

 

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fidel escreve: O golpe arteiro à espreita

Reflexão de Fidel Castro publicada ontem, no Jornal Granma:

Terça-feira, 8 de junho, escrevi a Reflexão "No limiar da tragédia" em horas do meio-dia, mais tarde vi o programa televisivo "Mesa-Redonda" de Randy Alonso, que se divulga normalmente às 18h30.
Nesse dia, destacados e prestigiosos intelectuais cubanos que participavam da Mesa, perante as agudas perguntas do diretor, responderam com eloquentes palavras que respeitavam grandemente minhas opiniões, mas que não acreditavam que haveria razão para que o Irã recusasse a possível decisão — já conhecida — que adotaria o Conselho de Segurança na manhã de 9 de junho, em Nova Iorque — sem dúvida alguma combinada entre os líderes das cinco potências com direito ao veto: os Estados Unidos, a Inglaterra e a França, com os da Rússia e da China.
Nesse instante, expressei às pessoas próximas que costumam acompanhar-me: "Lamento imenso não ter podido finalizar minha Reflexão expressando que ninguém desejava mais que eu estar enganado!", mas era já tarde, não podia retrasar seu envio ao site CubaDebate e ao jornal Granma.
No dia seguinte, às 10h, conhecendo que essa era a hora da reunião, pensei em sintonizar a CNN em espanhol, que com certeza daria notícias do debate no Conselho de Segurança. Pude assim escutar as palavras com que o presidente do Conselho apresentava um projeto de resolução, promovido dias antes pelos Estados Unidos, apoiado pela França, Grã-Bretanha e Alemanha.
Falaram também vários representantes dos principais membros envolvidos no projeto. A representante dos Estados Unidos explicou por que seu país aprovava isso, com o pretexto já sabido de sancionar o Irã por ter violado os princípios do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Por sua vez, o representante da Turquia, um de cujos navios foi vítima do brutal ataque das forças elites de Israel, que transportadas em helicópteros assaltaram na madrugada de 31 de maio a frotilha que levava alimentos para o milhão e meio de palestinos sitiados num fragmento de sua própria Pátria, manifestou a intenção de seu governo de se opor a novas sanções ao Irã.
A CNN, no espaço que dispunha para notícias, apresentou várias imagens de mãos erguidas, na medida em que expressavam com gestos visíveis sua posição, entre elas, a do representante do Líbano, país que se absteve durante a votação.
A presença serena dos membros do Conselho de Segurança que votaram contra a Resolução se expressou com a direita firme de uma mão de mulher, a representante do Brasil, que tinha exposto antes com tom seguro as razões pelas quais sua Pátria se opunha ao acordo.
Faltava ainda um monte de notícias sobre o tema; sintonizei a Telesur, que durante horas satisfez a incontável necessidade de informação.
O presidente Lula da Silva expressou na cidade de Natal, ao nordeste do país, duas frases lapidárias: que as sanções aprovadas eram impostas por "aqueles que acreditam na força e não no diálogo", e que a reunião do Conselho de Segurança "poderia ter servido para discutir o desarme dos que têm armas atômicas".
Nada de raro teria que tanto Israel quanto os Estados Unidos e seus estreitos aliados com direito ao veto no Conselho de Segurança, França e Grã-Bretanha, queiram aproveitar o enorme interesse que desperta o Mundial de Futebol para tranquilizar a opinião internacional, indignada pela criminosa conduta das tropas elites israelenses na Faixa de Gaza.
É, portanto, muito provável que o golpe arteiro se dilate algumas semanas, e inclusive, seja esquecido pela maioria das pessoas nos dias mais calorosos do verão boreal. Haveria que observar o cinismo com que os líderes israelenses responderão as entrevistas de imprensa nos próximos dias, onde serão bombardeados com perguntas. Oportunamente, eles irão elevando o rigor de suas exigências antes de apertar o gatilho. Anseiam repetir a história de Mossadegh em 1953, ou levar o Irã à idade de pedra, uma ameaça da qual gosta o poderoso império em seus tratos com o Paquistão.
O ódio do Estado de Israel contra os palestinos é tal, que não hesitaria em enviar o milhão e meio de homens, mulheres e crianças desse país aos crematórios nos que foram exterminados pelos nazistas milhões de judeus de todas as idades.
A suástica do Führer pareceria ser hoje a bandeira de Israel. Esta opinião não nasce do ódio, mas sim do sentimento dum país que se solidarizou e prestou albergue aos judeus quando nos dias difíceis da Segunda Guerra Mundial, o governo pró-ianque de Batista tentou enviar de retorno à Europa um navio carregado deles, que escapavam da França, Bélgica e Holanda, por causa da perseguição nazista.
Conheci muitos membros da inúmera comunidade judaica radicada em Cuba, quando triunfou a Revolução; visitei-os e falei com eles várias vezes. Nunca os expulsamos de nosso país. As diferenças com muitos deles surgiram por ocasião das leis revolucionárias que afetaram interesses econômicos e, por outro lado, a sociedade de consumo atraia muitos, frente aos sacrifícios que implicava a Revolução. Outros permaneceram em nossa Pátria e, prestaram valiosos serviços a Cuba.
Uma etapa nova e tenebrosa abre-se para o mundo.
Ontem, às 0h44 falou Obama sobre o acordo do Conselho de Segurança.
Eis algumas notas do que expressou o presidente, tomadas da CNN em espanhol.
 "Hoje, o Conselho de Segurança da ONU votou por maioria a favor de uma sanção contra o Irã por seus  repetidos descumprimentos…".
"Esta resolução é a sanção mais forte que enfrenta o governo iraniano e envia uma mensagem inequívoca sobre o compromisso da comunidade internacional de frear a expansão das armas nucleares."
"Por anos, o governo iraniano descumpriu suas obrigações recolhidas no Tratado de Não-Proliferação Nuclear."
"Enquanto os líderes iranianos se escondem por trás de retórica, suas ações os comprometeram".
"De fato, quando tomei posse há 16 meses, a intransigência iraniana era forte".
"Oferecemos-lhes perspectivas dum melhor futuro se cumpria suas obrigações internacionais".
"Aqui não há duplo padrão".
"O Irã violou suas obrigações sob as resoluções do Conselho de Segurança para suspender o enriquecimento de urânio".
"Por isso, estas medidas tão severas".
"São as mais rigorosas que tenha enfrentado o Irã".
 "Isto demonstra a visão partilhada de que no Oriente Médio a ninguém convêm desenvolver estas armas".
Estas frases que selecionei de seu breve discurso são mais que suficientes para demonstrar quão fraca, débil e injustificável é a política do poderoso império.
O próprio Obama admitiu em seu discurso na universidade islâmica de Al-Azhar, no Cairo, que "em meio da Guerra Fria, os Estados Unidos desempenharam um papel na derrubada dum governo iraniano eleito democraticamente", apesar de que não disse quando nem com que propósitos. É possível que nem sequer se lembrasse como o levaram a cabo contra Mossadegh em 1953, para instalar no governo a dinastia de Reza Pahlevi, o xá do Irã, ao qual armaram até os dentes, como seu principal gendarme nessa região do Oriente Médio, onde o sátrapa acumulou uma imensa fortuna, derivada das riquezas petroleiras desse país.
Naquela época o Estado de Israel não possuía uma só arma nuclear. O império tinha um enorme e incontrastável poder nuclear. Então, os Estados Unidos pensaram na arriscada ideia de criar em Israel um gendarme no Oriente Médio, que hoje ameaça uma parte considerável da população mundial e é capaz de atuar com a independência e o fanatismo que o caracterizam.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A saudade do escravo na velha diplomacia brasileira

As elites brasileiras, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca aceitaram Lula porque pensam que seu lugar não é na Presidência, mas sim na fábrica produzindo para elas. A nossa imprensa comercial é obtusa face ao novo período histórico que estamos vivendo. Por isso abomina também a diplomacia de Lula.
O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do escravo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o escravo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de escravidão. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do Oprimido. "Com humor comentou Frei Betto: "em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor". Quer dizer, o oprimido hospeda em si o opressor e é exatamente isso que o faz oprimido". A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor, mas o cidadão livre.

Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor.

O Globo fala em "suicídio diplomático" (24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais: "Sucursal do Império", pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, têm seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.

As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como são Hawaí e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.

O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições.

O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.

A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Original em Carta Maior

segunda-feira, 7 de junho de 2010

sábado, 5 de junho de 2010

1 ano do Blog "Cidadã do Mundo"


Na nossa caminhada, dentro da  mídia alternativa, temos a felicidade de contar com solidários companheiros de todos os rincões da terra.
A Portuguesa Athena, com seu "Blogue", é uma dessas pessoas.
Hoje, o "Cidadã do Mundo" completa 1 ano!
Saudações à companheira que, do outro lado do oceano, também luta por uma outra sociedade possível!

Abaixo, reprodução da primeira postagem de Athena:

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão


sexta-feira, 4 de junho de 2010

"Humor" preconceituoso israelense contra Lula

O programa "Latma News", de Israel, tenta ridicularizar o presidente brasileiro  por conta do bem sucedido acordo com o Irã.
Além do humor político duvidoso, descaradamente transparece o preconceito e a arrogância xenofóbica contra a América Latina e o Brasil, ao mostrarem um Lula caribenho rodeado por índias carnavalescas(?)
Preconceito que apresenta-se em formas mais raivosas nas sub-potências do hemisfério norte.
Agradecimentos ao direitoso que legendou o vídeo.



Israel: novo massacre humanitário?

Por Emir Sader

Os capítulos da história são tão claros, quanto dramáticos. Primeiro os judeus obtêm a aprovação da ONU para a construção do Estado de Israel. Para isso expulsam milhões de palestinos que ocupavam a região. Em seguida, aliados aos EUA, impedem que o mesmo direito, reconhecido igualmente pela ONU, seja estendido aos palestinos, com a construção de um Estado soberano tal qual goza Israel.

Depois, ocupação dos territórios palestinos, militarmente, seguida da instalação de assentamentos com judeus chegados especialmente dos países do leste europeu, recortando os territórios palestinos.

Não contentes com esse esquartejamento dos territórios palestinos, veio a construção de muros que dividem esses territórios, buscando não apenas tornar inviável a vida e a sustentabilidade econômica da Palestina, mas humilhar a população que lá resiste.

Há um ano e meio, o massacre de Gaza. A maior densidade populacional do mundo, cercada e afogada na sua possibilidade de sobrevivência, é atacada de forma brutal pelas tropas israelenses, com as ordens de que “não há inocentes em Gaza”, provocando dezenas de milhares de mortos na população civil, em um dos piores massacres que o mundo conheceu nos últimos tempos.

Não contente com isso, Israel continua cercando Gaza. Um ano e meio depois nem foi iniciado o processo de reconstrução, apesar dos recursos recolhidos pela comunidade internacional, porque a população continua cercada da mesma maneira que antes do massacre de dezembro 2008/janeiro 2009. As epidemias se propagam, enquanto remédios e comida apodrecem no deserto, do lado de fora de Gaza, cercada como se fosse um campo de concentração pelas tropas do holocausto contemporâneo.

Leia o restante  no Blog do Emir

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Yoani Sánchez (ou como promover uma dissidente cubana)

A blogueira é a bola da vez da estratégia de Washington de forjar uma oposição interna em Cuba. Seu multimilionário blog não é resultado de iniciativa espontânea de uma cidadã que resolveu abrir o coração, como a mídia hegemônica costuma apresentá-lo. A execução do programa que financia essa política intervencionista foi provisoriamente suspensa pelo Senado estadunidense, sobretudo por causa da prisão, em Cuba, de um enviado de Washington que tinha a tarefa de tratar da distribuição do dinheiro. O artigo é de Hideyo Saito.

Hideyo Saito

A blogueira Yoani Sánchez é hoje a figura mais cortejada pela coalizão de forças que combate a revolução cubana, liderada por Washington e composta por outros governos, por partidos políticos, por órgãos da mídia e por ONGs do mundo inteiro. Trata-se de uma poderosa tropa de choque que exige ampla liberdade política, respeito aos direitos humanos e democracia, mas apenas em Cuba. Aparentemente nenhuma outra nação no mundo inspira seus cuidados em relação a esses direitos políticos e humanos. Da mesma forma, denuncia também a escassez de bens de consumo em Cuba, mas jamais menciona o estrangulamento econômico praticado por Washington (que, aliás, é condenado por todos os países-membros da ONU, com as únicas exceções dos próprios Estados Unidos e de Israel).

O objetivo central dessa coalizão passou a ser, desde os anos 90, organizar e financiar uma oposição interna em Cuba. O congresso dos Estados Unidos aprovou leis especiais para respaldar essa política: a Torricelli, de 1992, e a Helms-Burton, de 1996. O intervencionismo teve seu auge no período de George W. Bush, que criou a Comissão de Apoio a uma Cuba Livre, presidida pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, e indicou Caleb McCarry (um dos artífices do golpe contra o presidente Jean-Bertrand Aristide no Haiti), como responsável pela transição à democracia naquele país.

Os recursos oficiais estadunidenses destinados a essa finalidade foram, em 2009, de US$ 45 milhões, sem considerar o orçamento da Rádio e TV Martí e verbas paralelas não declaradas (1). No atual exercício, haviam sido liberados US$ 20 milhões, com a orientação de que fossem distribuídos diretamente aos destinatários em Cuba. O programa, entretanto, foi provisoriamente suspenso em abril último pelo presidente do Comitê Exterior do Senado, John Kerry (ex-candidato presidencial), provavelmente por causa da prisão em flagrante, em Cuba, de Alan P. Gross, quando fazia a distribuição de dinheiro e de equipamentos de comunicação (2).

O advogado José Pertierra, que atua em Washington, relacionou de forma exaustiva os diversos itens da ajuda provisoriamente suspensa, com base em informe oficial do Senado dos EUA. Destacamos apenas alguns, a título de exemplo: US$ 750 mil para os defensores de direitos humanos e da democracia; US$ 750 mil para parentes de presos políticos, como as “Damas de Branco”, e para ativistas que lutam para libertar aqueles presos; US$ 3,8 milhões para promover a liberdade de expressão, especialmente entre artistas, músicos, escritores, jornalistas e blogueiros (com ênfase nos afrocubanos); US$ 1,15 milhão para capacitar os ativistas mencionados no uso das novas tecnologias de comunicação.

A corrida pelo dinheiro de Washington
Essas informações tornam insustentável negar o financiamento estadunidense aos chamados dissidentes, de maneira geral. Não custa recordar ainda que aqueles que a mídia dominante insiste em chamar de presos políticos (cuja libertação está sendo reclamada pelo grevista de fome Guillermo Fariñas Hernández) foram julgados em 2003 justamente sob a acusação de receber dinheiro de Washington para combater a revolução. Em relatório de 2006, a Anistia Internacional registrou a realização, no ano anterior, de um congresso de dissidentes com a participação de mais de 350 organizações (a ata do encontro, porém, menciona a presença de 171 pessoas) nos arredores de Havana. Essa proliferação, porém, longe de mostrar a força da oposição, esconde a corrida de seus idealizadores para arrancar dinheiro de Washington.

Praticamente todas são organizações artificiais, criadas para que suas lideranças possam apresentar-se no escritório de representação dos EUA em Havana para receber a sua parte na cobiçada "ajuda em prol da democracia". Não há notícias sobre discussões políticas ou doutrinárias nessas entidades e muito menos de ações públicas sérias de sua iniciativa. Mas há fartos registros, isto sim, de brigas e denúncias recíprocas envolvendo a repartição e o uso da dinheirama. É por isso que, neste momento, a maioria dos dissidentes não vê com bons olhos a ascensão de Yoani Sánchez.

Lech Walesa de saias
O sonho dourado dos ideólogos de Washington é forjar em Cuba um novo Lech Walesa, o líder do sindicato Solidariedade e depois presidente da Polônia, apontado pelo National Endowment for Democracy (NED), do Departamento de Estado, como o maior triunfo de sua política. No caso de Cuba, isso foi tentado, entre 2000 e 2002, com um dissidente chamado Osvaldo Payá Sardiñas, organizador de um projeto de lei de iniciativa popular, que teve pouco mais de 11 mil assinaturas. O projeto foi recebido oficialmente, mas rejeitado pelo parlamento cubano.

Ele pretendia estabelecer nada menos que a liberdade para a criação de empresas privadas, inclusive órgãos de imprensa, a instituição do pluripartidarismo e outras medidas que implicavam eliminar o socialismo cubano de uma penada, baseado no suporte daquelas assinaturas (o número de eleitores no país é de 8,5 milhões). Equivale a um projetooligopólios da comunicação. Seria cômico se o conteúdo da iniciativa não coincidisse com o do “programa de transição” divulgado em 2006 pela Comissão de Apoio a uma Cuba Livre, do governo Bush.

Em todo caso, com base nesse projeto Osvaldo Payá foi transformado em herói pela mídia dominante. Como acontece atualmente com a blogueira Sánchez, foi alvo de prêmios e honrarias mundo afora, além de merecer espaços enormes na mídia dominante. Recebeu, entre tantos outros, o Prêmio Andrei Sakharov da União Européia, quando estava sob a presidência do ex-premiê espanhol, José Maria Aznar, e foi recepcionado em audiência especial pelo Papa João Paulo II. Como o esforço não produziu os resultados esperados, a mesma mídia que o glorificava o esqueceu (como havia feito antes com Armando Valladares).

Agora, chegou a vez de Yoani Sánchez. Após ter resolvido subitamente voltar a Cuba de seu exílio na Suíça, colocou o blog no ar em abril de 2007. Pouco mais de meio ano mais tarde, ela já se transformava em personalidade mundial, com o acionamento da engrenagem publicitária da coalizão anticubana. Começaram a aparecer entrevistas de página inteira com a blogueira, não raro com chamadas de capa, em grandes publicações como The Wall Street Journal, The New York Times, The Washington Post, Die Zeit e El País, sem falar nos jornalões brasileiros e na indefectível Veja.

Ao mesmo tempo, sempre de forma significativamente sincronizada, surgiram os prêmios, os convites para viagens e outras iniciativas de cunho promocional. Em 2008 a blogueira foi premiada em vários países da Europa e nos Estados Unidos, além de ter sido incluída, pela revista Time, na relação das 100 personalidades mais influentes do mundo e pelo diário espanhol El País, entre os 100 hispano-americanos mais influentes. No mesmo ano, a revista estadunidense Foreign Policy a considerou um dos 10 intelectuais mais importantes do ano, assim como a revista mexicana Gato Pardo. Mais recentemente, lançou um livro em grande estilo, com edições quase simultâneas em diversos países, e adiantamento por conta de direito autoral (como os € 50 mil pagos pela editora italiana Rizzoli). Digno de registro também é que Yoani Sánchez enviou um questionário dirigido ao presidente Barack Obama e ele o respondeu prontamente. Ela explicou candidamente a atenção que Obama lhe dedicou: “talvez eu tenha sorte”.

Um blog multimilionário
A verdade é que o blog que a fez famosa desfruta de sorte não menos fantástica. Ele foi registrado por intermédio de um serviço chamado GoDaddy, uma companhia que costuma ser contratada pelo Pentágono para compra de domínios de forma anônima e segura para suas guerras no cyberespaço, conforme denunciou a jornalista espanhola Norelys Morales Aguilera (3). “Não há em toda Cuba uma só página de internet, nem privada, nem pública, com o potencial tecnológico e de design da que ela exibe em seu blog”, sustenta.

O blog é atualmente hospedado em servidor espanhol, que não lhe cobra nada ("por 18 meses", diz ela), embora processe 14 milhões de visitas mensais e ofereça suporte técnico praticamente exclusivo. No mercado, custaria milhares de dólares por mês. É traduzido para nada menos que 18 idiomas, luxo que nem os portais dos mais importantes organismos multilaterais, como a ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a OCDE, exibem. Sánchez diz que são amigos que fazem as traduções. Segundo o jornalista Pascual Serrano, ela usa recursos da web 2.0 a que muito poucos cubanos têm acesso, como o Twitter, os foros sociais e outros (4). Em 2009, segundo o jornalista francês Salim Lamrani, o Departamento do Tesouro dos EUA, baseando-se na lei do bloqueio, fechou mais de 80 sítios de internet relacionados a Cuba, alegando que eles promoviam comércio. A única exceção foi justamente o blog de Sánchez, embora lá também haja venda de livros. Aliás, o sistema de pagamento utilizado por ele, o Paypal, e o de “copyright” que protege os textos da blogueira estão igualmente vedados a qualquer outro cidadão cubano, pelas mesmas razões (5).

Em recente entrevista a Lamrani, feita em Havana, Sánchez disse que seu blog não pode ser acessado de Cuba, como costuma “denunciar” aos dóceis jornalistas da mídia dominante. Só que desta vez foi desmentida no ato pelo entrevistador, que havia acabado de entrar na página sem qualquer restrição. Então, espertamente se corrigiu: “com freqüência ele fica bloqueado” (6). A verdade é que o blog – assim como qualquer outro sítio – jamais foi objeto de medida repressiva do governo cubano. Isso é comprovado pela Alexa - The Web Information Company, que mede o volume de acesso de páginas de internet do mundo inteiro: segundo seus dados, o portal Desde Cuba, que abriga o blog de Sánchez, tinha 7,1% do seu tráfego originário de equipamentos cubanos, no final de 2009 (7).

O blog de Sánchez também foi distinguido em 2008 como um dos 25 melhores do mundo pela TV CNN, além de ter sido premiado pela revista Time e pela TV Deutsche Welle. As justificativas das premiações e honrarias alegam a coragem cívica de sua idealizadora e exaltam a qualidade de suas crônicas, embora elas se caracterizem, na verdade, por uma descrição pouco sutil da situação cubana, num tom catastrofista, sem qualquer nuance. Em sua prosa simplista, Cuba não passa de uma “imensa prisão com muros ideológicos”, onde se ouvem os “gritos do déspota” e as pessoas vivem entre “o desencanto e a asfixia econômica”, por culpa exclusiva do governo. Não há programas sociais bem-sucedidos, mesmo que eles sejam reconhecidos até pelo Banco Mundial, assim como não há fatores externos que agravam as dificuldades do país – exatamente como no diagnóstico maniqueísta da extrema-direita de Miami.

Apesar de tudo, após se casar com um alemão e se estabelecer na Suíça entre 2002 e 2004, Yoani Sánchez não só decidiu voltar espontaneamente a esse inferno que descreve com tintas carregadas, como implorou ao governo cubano que anulasse a sua condição de emigrada (8). Definitivamente, não estamos diante de uma amadora que resolveu despretensiosamente escrever sobre sua rotina e a de seu país, como ela é descrita pela mídia dominante.

NOTAS

(1) Diversas auditorias pedidas por congressistas concluíram que havia desvio e corrupção envolvendo esse dinheiro, mas a "ajuda" continuou, a pedido dos próprios dissidentes, como Elizárdo Sánchez e Martha Beatriz Roque.

(2) José Pertierra. La guerra contra Cuba: Nuevos presupuestos y la misma premisa. CubaDebate, 02/04/2010. http://www.cubadebate.cu/opinion/2010/04/02/guerra-eeuu-contra-cuba-nuevos-presupuestos-misma-premisa/.

(3) Norelys Morales Aguilera. Si los blogs son terapéuticos ¿Quién paga la terapia de Yoani Sánchez?. La República , 13/08/2009. http://larepublica.es/firmas/blogs/index.php/norelys/main-32/?paged=3.

(4) Pascual Serrano. Yoani en el país de las paradojas. Blog Pessoal, 19/01/2010. http://blogs.publico.es/dominiopublico/1781/yoani-en-el-pais-de-las-paradojas/.

(5) Salim Lamrani. Cuba y la “ciberdisidencia”. Cubadebate, 26/11/2009. http://www.cubadebate.cu/opinion/2009/11/26/cuba-y-ciberdisidencia/.

(6) Repórter desmascara blogueira cubana Yoani Sánchez em entrevista. Portal Vermelho, 25/04/2010. http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=128182&id_secao=7.

(7) Ver http://www.alexa.com/siteinfo/desdecuba.com. O jornalista espanhol Pascual Serrano solicitou a amigos de Havana que tentassem acessar o blog de Yoani Sánchez no mesmo horário. De cinco diferentes computadores, alguns residenciais, outros públicos, usando diferentes provedores, quatro entraram na página sem problema. Pascual Serrano. El blog censurado en Cuba. Rebelión, 26/03/2008. http://www.rebelion.org/noticia.php?id=65134.

(8) Ela contou em seu blog que se surpreendeu com a existência, no serviço de imigração, de fila de pessoas que retornam a Cuba após terem pedido para sair.

(*) O autor é jornalista com passagem pela Rádio Havana. Tem prontos os originais de um livro sobre a atualidade cubana, produzido em colaboração com Antonio Gabriel Haddad, com o título provisório de “Cuba sem bloqueio: a revolução cubana sem as manipulações impostas pela mídia dominante”.